Quarta-feira, Janeiro 11, 2012
Três Paisagens Para Sandra
I
Um luto feito, de fim de Verão
Em pleno e lento Inverno. As folhas não são mais folhas quando se desprendem das árvores e emitam a morte.
Não se morre,
Quando se sonha e acredita
Tu, mais do que tu mesma
No bouquet d’águas malvas
Corre o teu dedo, desenha a luz
O seu infinito
Tu vives
Desdobrada do teu corpo
Só eu assisto
Porque ainda temos pouco conhecimento
Da nossa carne
Porque…
As almas são o nosso verdadeiro corpo
A soma, a árvore nascida torta
Mais forte do que todas as outras, porque assim vive e é feliz
O elefante na árvore
A lira do sonho leito feito pousa no rio
A tua armadura
A ferrugem não é o fim
Mas uma transformação
É ópera
No carro
Na tenda
Ou o sol que canta quando se põe
Ou a lua que arqueja
No firmamento
Em vaporoso equilíbrio
Não há luz natural
Só o candeeiro que reflecte
O vapor do chá.
II
Não temos rasto nem sombra
Nem mãos. Somos uma ponte
Que veio do Japão ou de uma canção
Ou
Juntas as mãos, são a… ponte
No chão.
Corpos lentos aguentando o peso do
Mundo ninguém sabe
Somos nós. Tu e eu. Tu e eu. Tu e eu.
Que fazemos a Terra girar
Tu sopras, eu embalo
Tu travas, eu calço o planeta inteiro
Se olhar para os teus olhos
Não precisarei mais dos meus
Ontem foi Sábado
Hoje também é, amanhã será
Luz lunar
No dia que todo foi manhã
Não tocamos a areia
Não sentimos o cheiro do mar
A tenda
O escuro e só teus olhos
Circulando no meu rosto admirado
Digo o teu nome bebo-o
A tua saliva embrulha a minha língua
Corre! Vai tudo contar ao coração
Quentes
Devíamos ficar nus
Banharmo-nos no mar, na escuridão
Vestires a minha roupa
A tua no meu corpo
Amarmos a pele nossa
Ombros braços queixo orelhas
Nesses caminhos, felicidade
Um mural escrito a fios de
Cabelos
Teu rosto a paisagem vasta. O lírio, o som que as flores fazem quando amam.
III
São vinte e uma horas e quatro minutos. Domingo.
O relógio continua parado
Inventamos a máquina de parar o tempo amor tempo
Apaixonei-me pelo teu mar
Vasto suave quente sem
Queimar
Tu não. é cedo.
O comboio vem longe esperámos por ele e as carruagens
Também têm de descansar.
Braço teu em redor do meu
Luvas leque sombrinha fechada
A viagem o pêndulo romântico
Atrás na última carruagem
No último banco
Vemos a luz caçando a paisagem
Não temos bilhetes não importa
Lês leio o dedo teu
Na página vincamos o papel
Contemplamos as palavras memorizadas
E deitámo-las através do vidro
Beijo o calor da tua boca
Que procura a minha
Verde o campo de golfe
Azul o céu que se lhe mistura
Granja românticos
Passeamos prevejo o futuro
Escrevo-o
Calmo estou sereno como nunca
Estive
Aguardo o canto que se difere
Num pássaro que me diga
Que
É
Foi
Sempre
Tempo
De te amar.
Continuidade… de nós…
Um luto feito, de fim de Verão
Em pleno e lento Inverno. As folhas não são mais folhas quando se desprendem das árvores e emitam a morte.
Não se morre,
Quando se sonha e acredita
Tu, mais do que tu mesma
No bouquet d’águas malvas
Corre o teu dedo, desenha a luz
O seu infinito
Tu vives
Desdobrada do teu corpo
Só eu assisto
Porque ainda temos pouco conhecimento
Da nossa carne
Porque…
As almas são o nosso verdadeiro corpo
A soma, a árvore nascida torta
Mais forte do que todas as outras, porque assim vive e é feliz
O elefante na árvore
A lira do sonho leito feito pousa no rio
A tua armadura
A ferrugem não é o fim
Mas uma transformação
É ópera
No carro
Na tenda
Ou o sol que canta quando se põe
Ou a lua que arqueja
No firmamento
Em vaporoso equilíbrio
Não há luz natural
Só o candeeiro que reflecte
O vapor do chá.
II
Não temos rasto nem sombra
Nem mãos. Somos uma ponte
Que veio do Japão ou de uma canção
Ou
Juntas as mãos, são a… ponte
No chão.
Corpos lentos aguentando o peso do
Mundo ninguém sabe
Somos nós. Tu e eu. Tu e eu. Tu e eu.
Que fazemos a Terra girar
Tu sopras, eu embalo
Tu travas, eu calço o planeta inteiro
Se olhar para os teus olhos
Não precisarei mais dos meus
Ontem foi Sábado
Hoje também é, amanhã será
Luz lunar
No dia que todo foi manhã
Não tocamos a areia
Não sentimos o cheiro do mar
A tenda
O escuro e só teus olhos
Circulando no meu rosto admirado
Digo o teu nome bebo-o
A tua saliva embrulha a minha língua
Corre! Vai tudo contar ao coração
Quentes
Devíamos ficar nus
Banharmo-nos no mar, na escuridão
Vestires a minha roupa
A tua no meu corpo
Amarmos a pele nossa
Ombros braços queixo orelhas
Nesses caminhos, felicidade
Um mural escrito a fios de
Cabelos
Teu rosto a paisagem vasta. O lírio, o som que as flores fazem quando amam.
III
São vinte e uma horas e quatro minutos. Domingo.
O relógio continua parado
Inventamos a máquina de parar o tempo amor tempo
Apaixonei-me pelo teu mar
Vasto suave quente sem
Queimar
Tu não. é cedo.
O comboio vem longe esperámos por ele e as carruagens
Também têm de descansar.
Braço teu em redor do meu
Luvas leque sombrinha fechada
A viagem o pêndulo romântico
Atrás na última carruagem
No último banco
Vemos a luz caçando a paisagem
Não temos bilhetes não importa
Lês leio o dedo teu
Na página vincamos o papel
Contemplamos as palavras memorizadas
E deitámo-las através do vidro
Beijo o calor da tua boca
Que procura a minha
Verde o campo de golfe
Azul o céu que se lhe mistura
Granja românticos
Passeamos prevejo o futuro
Escrevo-o
Calmo estou sereno como nunca
Estive
Aguardo o canto que se difere
Num pássaro que me diga
Que
É
Foi
Sempre
Tempo
De te amar.
Continuidade… de nós…
Segunda-feira, Junho 20, 2011
papel queimado
Papel Queimado
2011-04-12
Chamo-me Ether e tenho uma doença rara. Não consigo dormir, não consigo aproveitar o tempo em que estou acordado. Sempre quis concretizar este desejo idiota: de não dormir e agora…, olho através da janela e não vejo nada. Não consigo morrer, não consigo querer morrer. chama-se cobardia! E porque tenho necessidade de morrer, quando percebi que não dormia? Podia, sim!, podia desejaer apenas o sono, algo idêntico a isso. Como água. Em todo o lado, com diferentes mineralizações. Água, contudo, água, vos digo.
Sombras e névoa. Filme.
Chuva que não cai, parece-se com pluviosidade. Nem sei. Não importa ter sabido o quer que seja. Pannus, Nimbostratus. Nã! devem ser Pannus, e desta maneira o vento soprar e não apaga, por mais forte que seja, o fogo das velas que brilham nos olhos, NESSES olhos…
Só queria dormir.
Não sonho acordado.
Se dormir, uma só vez, pela última vez, talvez sonhe. E nesse sonho viaje, corra desalmado por um caminho indefinido. Não olharei para trás.
Correr. Nunca gostei de correr, mas ultimamente é isso que quero fazer. Correr sem parar, até me extenuar e morrer lentamente sem uma bolha de ar nos pulmões.
E se alguém me vê a correr? As pernas desalinhadas…
A pele…como papel queimado…
2011-04-12
Chamo-me Ether e tenho uma doença rara. Não consigo dormir, não consigo aproveitar o tempo em que estou acordado. Sempre quis concretizar este desejo idiota: de não dormir e agora…, olho através da janela e não vejo nada. Não consigo morrer, não consigo querer morrer. chama-se cobardia! E porque tenho necessidade de morrer, quando percebi que não dormia? Podia, sim!, podia desejaer apenas o sono, algo idêntico a isso. Como água. Em todo o lado, com diferentes mineralizações. Água, contudo, água, vos digo.
Sombras e névoa. Filme.
Chuva que não cai, parece-se com pluviosidade. Nem sei. Não importa ter sabido o quer que seja. Pannus, Nimbostratus. Nã! devem ser Pannus, e desta maneira o vento soprar e não apaga, por mais forte que seja, o fogo das velas que brilham nos olhos, NESSES olhos…
Só queria dormir.
Não sonho acordado.
Se dormir, uma só vez, pela última vez, talvez sonhe. E nesse sonho viaje, corra desalmado por um caminho indefinido. Não olharei para trás.
Correr. Nunca gostei de correr, mas ultimamente é isso que quero fazer. Correr sem parar, até me extenuar e morrer lentamente sem uma bolha de ar nos pulmões.
E se alguém me vê a correr? As pernas desalinhadas…
A pele…como papel queimado…
b e i j o
Um calor alado
Entrelaçado em nosso voo
Perdemos as palavras
Nos olhares cor da luz, na espuma dos nossos sentidos
Embrulhamo-nos em silêncio
Que pela boca se conduz
Beijamo-nos…
Teus lábios em tons de coração
No teu rosto, a minha mão
Desenhando o teu nome
Sobre as águas da tua alma
A cumplicidade, um novo tomo
No beijo sem dono
O tempo que capazes fomos de parar
O odor
Que assinou num novo sentimento
Nas bocas húmidas resistentes à partida
Onde escrevemos um só momento
Tu, como a graciosa garça
Dominando as águas do mar
Eu, em ti navegando no abraço fundido
Acordado, vivo, a sonhar!
O carinho que da ponta do meus
Dedos, na tua pele transborda
Os teus belos olhos fechados, os teus belos olhos em pétalas de ternura
No meu peito escrevem
O horizonte
Nada terminará…
A nós…
Entrelaçado em nosso voo
Perdemos as palavras
Nos olhares cor da luz, na espuma dos nossos sentidos
Embrulhamo-nos em silêncio
Que pela boca se conduz
Beijamo-nos…
Teus lábios em tons de coração
No teu rosto, a minha mão
Desenhando o teu nome
Sobre as águas da tua alma
A cumplicidade, um novo tomo
No beijo sem dono
O tempo que capazes fomos de parar
O odor
Que assinou num novo sentimento
Nas bocas húmidas resistentes à partida
Onde escrevemos um só momento
Tu, como a graciosa garça
Dominando as águas do mar
Eu, em ti navegando no abraço fundido
Acordado, vivo, a sonhar!
O carinho que da ponta do meus
Dedos, na tua pele transborda
Os teus belos olhos fechados, os teus belos olhos em pétalas de ternura
No meu peito escrevem
O horizonte
Nada terminará…
A nós…
A Árvore da Vida
Planta-se a semente, ou
A árvore já feita
Crava-se bem fundo
O pulmão da raiz e espera-se
Haverá pássaros a cantar
Cigarras e lutos disfarçados pelas noites
Um pai zangado com o seu silêncio
Uma veia entupida
Que impede todas as palavras
Um negro ponto de luz
Que é corrente de ar, mãos de mãe
Pinças do pai
Mais vale rebolar! Correr até fingir
Que se está cansado
Esperar pelo sal nos lábios
À noite
Dizer que se ama o progenitor
Quando não temos coragem de odiar
Correr, outra vez contra o vento
Contra a rotação da Terra e de todos os planetas
A favor das lágrimas maternas
Do irmão morto imaginário
Sim, Tiago! Vou já! Ainda não nasci! Espera um pouco…
Deformadas as mãos, na água
O sol brilha
O sol não devia brilhar
O sol foge da felicidade à noite
Quando renasce não é o mesmo
A árvore floresce
Incendeia a relva fraca
Os pratos na mesa
Não podem cheirar a ovo!
Ou haverá gelo ao despertar
Mas, quem são?
Ele
Igual ao que poderia ter sido
Imitações um do outro
Lavados na lama no orvalho no céu
Os dedos procuram-se
Irreconhecem-se
O cinto das calças
Como uma cobra adormecida
No próprio veneno
Está nervoso, o pequeno
As lanternas abertas de luz
Para entumecer os sonhos
Os sonhos a correr! Rápidos
Encosta abaixo
Vem aí!, o pesadelo de luz
Um torpe ruído vindo do futuro
O mijo nas calças
E já tem cinco anos
Talvez, tenha frio
E não orvalha lá fora
As janelas abertas famintas
Impossibilitadas em bater
A mangueira no chão quente
A primeira água, quente
Logo fria
Gelada
Um osso de sal
Um cristal de lágrimas
Uma tristeza com hora marcada
Uma cama emoldurada no abismo
Cobre-te! nem que frio não sintas
Deixa o coração
Bater veloz
Perder a estribeira
Derramar-se em sangue
No choro da noite
No desconforto do exangue monólogo
Deixa-o falar
Mesmo em revolta
Mesmo quando abres a porta
Do quarto de banho
Onde a tua mãe imersa
Não o ouve
Acredita
Que é tudo ao contrário
Não baixes os dois braços
Apenas um
De cada vez
Como se o perdesses
E coxeia
Relampeja em vernáculos!
Só,
Dentro de ti
Como se
Habitasses outros corpos
Milhões de almas em ti
A correr
Todas elas aos encontrões
Cabeças abertas
Feridas por sarar
Venham as moscas, como no filme
Venha o silêncio
Que é falar de mais
E ser parecido
Nas coisas que ninguém conhece
Com ele, nas coisas mortas por
Conhecer
Caminhar só quando não há muito
Tempo
Ansiar pela manhã
Pelo sono pesado do sol
Correr
Escrever a fugir
Adormecer num luto imenso
De lágrimas leves, ocas
Pois voam
Esfregar as mãos salgadas
Apagar as impressões digitais
Nada
Nem pó, nem fé, nem calma
Esperar
Pelo cão que ladre
Chame o som
Até à minha boca
Que se evade
Se afoga na sopa demasiado quente
E a irmã
Fala para que forma um murmúrio
Um vazio
Nada se escuta
Levanta-se da mesa
Há um quarto à espera
Um rádio com cassetes que se
Repetem
Um implorar lento que não abrange
O fim
Chuva
Vento quente
Verão gasto interminável
As estações trocam-se
Verão que é Primavera
Inverno não sabe o que é
Chega
Ainda é dia
O portão bate, não tarda e quebrará
São seis da tarde
A horta de ervas daninhas
A incapacidade de fazer alguma coisa
O cheiro a álcool e cigarro pesado
A soma da saliva engolida
A morte que se anseia
A morte que fica para trás
A maldição de te recordar
Em todos os meus dias
A invasão de múltiplas tristezas
Quando tento sorrir
Como se isso não merecesse
Velório mergulha no frio descalço
Da água nos degraus da escada
Colhe flores, mas só no amanhã
Para que nunca murchem
Ou se envaideçam
Desmaia, como se imitasses a morte
Entrelaça os dedos
Nesse alfabeto misterioso
Perigoso
Engolido pela sombra
E vive, na casa da semente que aflora.
Paulo Malekith Rema
A árvore já feita
Crava-se bem fundo
O pulmão da raiz e espera-se
Haverá pássaros a cantar
Cigarras e lutos disfarçados pelas noites
Um pai zangado com o seu silêncio
Uma veia entupida
Que impede todas as palavras
Um negro ponto de luz
Que é corrente de ar, mãos de mãe
Pinças do pai
Mais vale rebolar! Correr até fingir
Que se está cansado
Esperar pelo sal nos lábios
À noite
Dizer que se ama o progenitor
Quando não temos coragem de odiar
Correr, outra vez contra o vento
Contra a rotação da Terra e de todos os planetas
A favor das lágrimas maternas
Do irmão morto imaginário
Sim, Tiago! Vou já! Ainda não nasci! Espera um pouco…
Deformadas as mãos, na água
O sol brilha
O sol não devia brilhar
O sol foge da felicidade à noite
Quando renasce não é o mesmo
A árvore floresce
Incendeia a relva fraca
Os pratos na mesa
Não podem cheirar a ovo!
Ou haverá gelo ao despertar
Mas, quem são?
Ele
Igual ao que poderia ter sido
Imitações um do outro
Lavados na lama no orvalho no céu
Os dedos procuram-se
Irreconhecem-se
O cinto das calças
Como uma cobra adormecida
No próprio veneno
Está nervoso, o pequeno
As lanternas abertas de luz
Para entumecer os sonhos
Os sonhos a correr! Rápidos
Encosta abaixo
Vem aí!, o pesadelo de luz
Um torpe ruído vindo do futuro
O mijo nas calças
E já tem cinco anos
Talvez, tenha frio
E não orvalha lá fora
As janelas abertas famintas
Impossibilitadas em bater
A mangueira no chão quente
A primeira água, quente
Logo fria
Gelada
Um osso de sal
Um cristal de lágrimas
Uma tristeza com hora marcada
Uma cama emoldurada no abismo
Cobre-te! nem que frio não sintas
Deixa o coração
Bater veloz
Perder a estribeira
Derramar-se em sangue
No choro da noite
No desconforto do exangue monólogo
Deixa-o falar
Mesmo em revolta
Mesmo quando abres a porta
Do quarto de banho
Onde a tua mãe imersa
Não o ouve
Acredita
Que é tudo ao contrário
Não baixes os dois braços
Apenas um
De cada vez
Como se o perdesses
E coxeia
Relampeja em vernáculos!
Só,
Dentro de ti
Como se
Habitasses outros corpos
Milhões de almas em ti
A correr
Todas elas aos encontrões
Cabeças abertas
Feridas por sarar
Venham as moscas, como no filme
Venha o silêncio
Que é falar de mais
E ser parecido
Nas coisas que ninguém conhece
Com ele, nas coisas mortas por
Conhecer
Caminhar só quando não há muito
Tempo
Ansiar pela manhã
Pelo sono pesado do sol
Correr
Escrever a fugir
Adormecer num luto imenso
De lágrimas leves, ocas
Pois voam
Esfregar as mãos salgadas
Apagar as impressões digitais
Nada
Nem pó, nem fé, nem calma
Esperar
Pelo cão que ladre
Chame o som
Até à minha boca
Que se evade
Se afoga na sopa demasiado quente
E a irmã
Fala para que forma um murmúrio
Um vazio
Nada se escuta
Levanta-se da mesa
Há um quarto à espera
Um rádio com cassetes que se
Repetem
Um implorar lento que não abrange
O fim
Chuva
Vento quente
Verão gasto interminável
As estações trocam-se
Verão que é Primavera
Inverno não sabe o que é
Chega
Ainda é dia
O portão bate, não tarda e quebrará
São seis da tarde
A horta de ervas daninhas
A incapacidade de fazer alguma coisa
O cheiro a álcool e cigarro pesado
A soma da saliva engolida
A morte que se anseia
A morte que fica para trás
A maldição de te recordar
Em todos os meus dias
A invasão de múltiplas tristezas
Quando tento sorrir
Como se isso não merecesse
Velório mergulha no frio descalço
Da água nos degraus da escada
Colhe flores, mas só no amanhã
Para que nunca murchem
Ou se envaideçam
Desmaia, como se imitasses a morte
Entrelaça os dedos
Nesse alfabeto misterioso
Perigoso
Engolido pela sombra
E vive, na casa da semente que aflora.
Paulo Malekith Rema
Segunda-feira, Fevereiro 14, 2011
Partilha
Vamos os dois, por umas horas
Abraçar árvores
Parar os relógios.
Com livros debaixo do braço
E silêncios ardendo
Nos nossos olhos.
Vamos nos sentar
Ler, ouvir a música
Diluída em chá.
Sentir a brisa
Dos teus dedos
Virando as páginas.
Sentires que te sorrio
Na quietude desmedida
De um quarto que é um jardim.
Que anoiteça, não importa
A música ainda vai a meio
E tu ainda cantas…
Abraçar árvores
Parar os relógios.
Com livros debaixo do braço
E silêncios ardendo
Nos nossos olhos.
Vamos nos sentar
Ler, ouvir a música
Diluída em chá.
Sentir a brisa
Dos teus dedos
Virando as páginas.
Sentires que te sorrio
Na quietude desmedida
De um quarto que é um jardim.
Que anoiteça, não importa
A música ainda vai a meio
E tu ainda cantas…
Que...
Quero jurar-te
Mãos trémulas sobre as tuas,
Que serei teu alfabeto
Teu silêncio
Dia e noite
Chuva morna em manhã de sol
Noite de luar quando adormeces
Compreensão da dor
Entendimento do futuro
Janela que espanta o medo
Porta que clama pela luz
Amigo das coisas difíceis de dizer
Riso do encontro das palavras
Sorriso após os pontos finais e as reticências
Teu, só teu,
Sempre
Como o amigo que nunca dorme sem te sonhar
Como um chá que nunca arrefece.
Mãos trémulas sobre as tuas,
Que serei teu alfabeto
Teu silêncio
Dia e noite
Chuva morna em manhã de sol
Noite de luar quando adormeces
Compreensão da dor
Entendimento do futuro
Janela que espanta o medo
Porta que clama pela luz
Amigo das coisas difíceis de dizer
Riso do encontro das palavras
Sorriso após os pontos finais e as reticências
Teu, só teu,
Sempre
Como o amigo que nunca dorme sem te sonhar
Como um chá que nunca arrefece.
Sábado, Fevereiro 12, 2011
teu
Como eu...
depois da violência das palavras sem sentido, dias que parecem distâncias entre
estrelas,
para curar a dor na pele, na alma, nos batimentos do coração
teu.
depois da violência das palavras sem sentido, dias que parecem distâncias entre
estrelas,
para curar a dor na pele, na alma, nos batimentos do coração
teu.
Terça-feira, Fevereiro 08, 2011
Terça-feira, Fevereiro 01, 2011
Sinto-me vivo.
Pulso.
Mas, não me sinto vivo sozinho.
A vida em solidão ensina, mas sem partilha, conduz ao isolamento,
ao esquecimento doloroso de nós mesmos.
Aceitar e dar espaço à solidão é alimentarmos a nossa alma, e no conhecimento dela, dar.
Dou o que tenho dentro de mim, sem reservas, porque pertenço
a ti, que leste no bater do meu coração, o meu alfabeto.
Pulso.
Mas, não me sinto vivo sozinho.
A vida em solidão ensina, mas sem partilha, conduz ao isolamento,
ao esquecimento doloroso de nós mesmos.
Aceitar e dar espaço à solidão é alimentarmos a nossa alma, e no conhecimento dela, dar.
Dou o que tenho dentro de mim, sem reservas, porque pertenço
a ti, que leste no bater do meu coração, o meu alfabeto.
Quarta-feira, Janeiro 26, 2011
Poema a um mundo simbiótico
No céu alguém plantou rosas
e semeou uma floresta
um mundo leve e florido
onde a alma pueril resta
viajo acompanhado
a esse lugar secreto
a lua e o sol risonhos
lado a lado aqui tão perto
a minha mão desprende-se
deste corpo aluado
conforta teu semblante
num doce afago
neste mundo amável
não há um lamento
apenas um corredor sem fim
fora de nós, fora do tempo.
e semeou uma floresta
um mundo leve e florido
onde a alma pueril resta
viajo acompanhado
a esse lugar secreto
a lua e o sol risonhos
lado a lado aqui tão perto
a minha mão desprende-se
deste corpo aluado
conforta teu semblante
num doce afago
neste mundo amável
não há um lamento
apenas um corredor sem fim
fora de nós, fora do tempo.
Segunda-feira, Janeiro 24, 2011
Sexta-feira, Janeiro 21, 2011
Lealdade
não preciso de sentir medo
não necessito chorar quando a solidão é só isolamento
tenho essa lealdade,
por ti, essa sensação impalpável
mas, forte como a sombra das árvores
que no chão reflecte apenas luz.
não necessito chorar quando a solidão é só isolamento
tenho essa lealdade,
por ti, essa sensação impalpável
mas, forte como a sombra das árvores
que no chão reflecte apenas luz.
dor que passa
A dor não é sempre a mesma,
como tal
o meu corpo
ultrapassa em queda a alma
sem fundo
com luz
cada vez mais luz!
e não sou triste, e não estou triste
porque ainda sonho, ainda corro, ainda acredito
ainda fico parado diante da simplicidade das coisas
contemplando-as como um céu dentro de uma lágrima
mas, a dor, amamentada pelas emoções vai ficando, vou me habituando...
e se um dia for nada, por tudo já terei passado...
como tal
o meu corpo
ultrapassa em queda a alma
sem fundo
com luz
cada vez mais luz!
e não sou triste, e não estou triste
porque ainda sonho, ainda corro, ainda acredito
ainda fico parado diante da simplicidade das coisas
contemplando-as como um céu dentro de uma lágrima
mas, a dor, amamentada pelas emoções vai ficando, vou me habituando...
e se um dia for nada, por tudo já terei passado...
Quinta-feira, Janeiro 20, 2011
Sensorial
A lua embrulhou a noite numa veste de invisibilidade. Pelo mesmo caminho, encerrei os olhos, para que não sentisse a presença de mim mesmo.
A cada bater do coração, um segundo que se perdia num estranho infinito e a cada passo uma lágrima envolta em néscia felicidade.
Abri os olhos, irrompi por entre as estrelas e abracei estas novas sensações.
Sentia o odor ténue das flores no sorriso que não queria evaporado; a humidade das lágrimas das estrelas no peito e entre os dedos, as palavras escapavam-se de mim como ar rarefeito de peso.
Abracei algo, uma forma. Senti segurança, senti medo que se voltasse a a fechar os olhos, desaparecesse...
A cada bater do coração, um segundo que se perdia num estranho infinito e a cada passo uma lágrima envolta em néscia felicidade.
Abri os olhos, irrompi por entre as estrelas e abracei estas novas sensações.
Sentia o odor ténue das flores no sorriso que não queria evaporado; a humidade das lágrimas das estrelas no peito e entre os dedos, as palavras escapavam-se de mim como ar rarefeito de peso.
Abracei algo, uma forma. Senti segurança, senti medo que se voltasse a a fechar os olhos, desaparecesse...
Quarta-feira, Janeiro 19, 2011
Terça-feira, Janeiro 18, 2011
William Shakespeare
Duvida da luz dos astros,
De que o sol tenha calor,
Duvida até da verdade,
Mas confia em meu amor.
De que o sol tenha calor,
Duvida até da verdade,
Mas confia em meu amor.
De algo...
"...O portão de ferro forjado diante de nós como uma passagem diáfana. Realidade, rotina necessária, ou claustro fechado à luz. A dúvida é a persistência do móbil que nos faz avançar..."
Segunda-feira, Janeiro 17, 2011
Sexta-feira, Janeiro 14, 2011
Primavera
"E por vezes é Primavera, sinto eu..."
Continuo-te...
Sentes como um copo sem arestas, numa forma que só os teus olhos percebem e sentem...
Um leve desmaio toma conta de mim, e entre o sonho e o clamor da Natureza, perpetuo este voto de amizade.
Seu
Continuo-te...
Sentes como um copo sem arestas, numa forma que só os teus olhos percebem e sentem...
Um leve desmaio toma conta de mim, e entre o sonho e o clamor da Natureza, perpetuo este voto de amizade.
Seu
Quinta-feira, Janeiro 13, 2011
Haikai a um dia de luz
Depois do meio-dia
seguramos o horizonte em dois dedos
um mundo de si.
Uníssono o canto dos
pássaros
emplumados como árvores.
(Haikai de um verso a mais)
Coração de pássaro
veloz sobre o vazio
encontro-te protegida
na concha das minhas mãos.
seguramos o horizonte em dois dedos
um mundo de si.
Uníssono o canto dos
pássaros
emplumados como árvores.
(Haikai de um verso a mais)
Coração de pássaro
veloz sobre o vazio
encontro-te protegida
na concha das minhas mãos.
Terça-feira, Janeiro 11, 2011
hoje de madrugada
Amar uma amizade
fechar os olhos
procurar com as mãos
os sentidos exalados
partilhar o ar respirado.
fechar os olhos
procurar com as mãos
os sentidos exalados
partilhar o ar respirado.
Segunda-feira, Janeiro 10, 2011
Pulcro
Gentil e formosa Amiga,
Contam-me as gotas de chuva
que estás feliz, e que assim
sobre ti, se evaporam,
em formas de nuvens e caravelas
Teu coraçao em mim se engrandece
para lá dos contornos do luar
meus sentidos te escutam
como marés livres nesta afeição tão recíproca...
Contam-me as gotas de chuva
que estás feliz, e que assim
sobre ti, se evaporam,
em formas de nuvens e caravelas
Teu coraçao em mim se engrandece
para lá dos contornos do luar
meus sentidos te escutam
como marés livres nesta afeição tão recíproca...
Sexta-feira, Janeiro 07, 2011
A uma amiga de emoções
Quando entendo a dor de alguém, compreendo tudo.
Quando dou as minhas palavras, que vivem em silêncio no coração, a alguém que sofre em igual silêncio, desdobro a luz, torno-a carícia.
Quando te sinto perdida, seguro também nessa corda
e acompanho a tua demanda.
Quando dou as minhas palavras, que vivem em silêncio no coração, a alguém que sofre em igual silêncio, desdobro a luz, torno-a carícia.
Quando te sinto perdida, seguro também nessa corda
e acompanho a tua demanda.
something has me...
Um verso de uma canção para demonstrar que enquanto tiver estas emoções dentro de mim
estarei sempre bem com as pessoas que admiro e gosto.
estarei sempre bem com as pessoas que admiro e gosto.
Quinta-feira, Janeiro 06, 2011
Pulquérrima flor
Cedo, nesta manhã morna de chuva, olhei através da janela, e na escuridão, reparei no pequeno cáule, que resistente cresce entre árvores adultas.
Não precisa de nome, mas soergue-se através de uma amizade que a cada dia raia como se fosse dotada de luz própria.
Não precisa de nome, mas soergue-se através de uma amizade que a cada dia raia como se fosse dotada de luz própria.
Quarta-feira, Janeiro 05, 2011
Terça-feira, Janeiro 04, 2011
amor
Antes de conhecermos um grande amor, temos de cair e levantarmo-nos outra vez.
Tolstoi in "Anna Kerenina."
Tolstoi in "Anna Kerenina."
Sexta-feira, Dezembro 31, 2010
Perfume de chá
O perfume do chá não ocultou a magnífica sensação de te reconhecer.
Pela continuidade de palavras escritas, de receios, de partilhas virtuais, um encontro, como saltar uma sebe e não cair.
As "timidezes" díluídas no conforto das emoções, personalidades que em comum têm o facto de não recearem serem o que sentem.
Talvez me repita, o que se inicia tão grandiosamente. Livros, cinema e música, conversas cruzadas que avançam e recuam como uma maré de um mar secreto.
Observo as mãos, é um hábito, como se unem, como em simples gestos parecem escrever com toda a sapiência o que se sente.
Não esquecerei, guardo intensamente o que vivo, o que sinto.
Que tenhas sentido o mesmo, aprazer-me-á saber, não por palavras, mas pelo olhar, pelo silêncio; tesouros que se guardam quando se dão.
A uma amiga
Afectuosamente seu.
Pela continuidade de palavras escritas, de receios, de partilhas virtuais, um encontro, como saltar uma sebe e não cair.
As "timidezes" díluídas no conforto das emoções, personalidades que em comum têm o facto de não recearem serem o que sentem.
Talvez me repita, o que se inicia tão grandiosamente. Livros, cinema e música, conversas cruzadas que avançam e recuam como uma maré de um mar secreto.
Observo as mãos, é um hábito, como se unem, como em simples gestos parecem escrever com toda a sapiência o que se sente.
Não esquecerei, guardo intensamente o que vivo, o que sinto.
Que tenhas sentido o mesmo, aprazer-me-á saber, não por palavras, mas pelo olhar, pelo silêncio; tesouros que se guardam quando se dão.
A uma amiga
Afectuosamente seu.
a.a.
- Acreditas no amor? Na amizade?
- Sim. É um motor. Como a amizade intensa num crescendo infinito.
- Sim. É um motor. Como a amizade intensa num crescendo infinito.
Depois do Gato Vadio
Vim, pelo regresso, conversando comigo mesmo.
Não há narcisismo, só para ouvir a minha própria voz e sentir que há duas sensações maravilhosas na vida; uma delas é a amizade, e espontânea tem um valor acrescido.
Pensei: "Hoje começas o que já começou, uma amizade sem arestas, onde a luz é bem-vinda e resta quieta como uma gota de água suspensa no ar."
Não há narcisismo, só para ouvir a minha própria voz e sentir que há duas sensações maravilhosas na vida; uma delas é a amizade, e espontânea tem um valor acrescido.
Pensei: "Hoje começas o que já começou, uma amizade sem arestas, onde a luz é bem-vinda e resta quieta como uma gota de água suspensa no ar."
Antes do Gato Vadio
O céu clareia-se
abro os sentidos
duas estrelas no céu...
um presságio feliz
através da noite fria que não me escusa
um sopro de calor
exanguo-me
mas, jamais ficarei oco por dentro.
abro os sentidos
duas estrelas no céu...
um presságio feliz
através da noite fria que não me escusa
um sopro de calor
exanguo-me
mas, jamais ficarei oco por dentro.
tempus perdu
Traduzir os teus olhos no meu pensamento
a volátil sensação de transparência
rocha que atravessa a rocha
um dia mais como este
sempre igual, amputei todos os ponteiros de todos os relógios da cidade.
temos o tempo todo para além de nós.
a volátil sensação de transparência
rocha que atravessa a rocha
um dia mais como este
sempre igual, amputei todos os ponteiros de todos os relógios da cidade.
temos o tempo todo para além de nós.
Flores
Apanhei flores pelo caminho para cobrir o teu rosto rosado,
admirarei a candura, os gestos e trejeitos.
O teu rosto roubou de mim as palavras essenciais.
Se assim for o meu futuro...
admirarei a candura, os gestos e trejeitos.
O teu rosto roubou de mim as palavras essenciais.
Se assim for o meu futuro...
Terça-feira, Dezembro 21, 2010
Poema sobre o fim destes dias
Na primeira pessoa, as lágrimas correm para o mesmo fim
Saí de manhã desta casa e risquei as paredes com os nós dos meus dedos
Tudo
Mesmo aquelas coisas que já não sei sentir
Talvez sejam cartas para alguém que eu deseje
Como tudo, personagens do que escrevo
Não são reais
Porque nunca estão felizes
Afundam-se entre os dedos e são frias
As ervas esmorecidas pelo rigor de um Outono estranho
Reflectem os meus passos
Riem de mim
Cada passo, um dia a menos, uma promessa a fel e escuridão
Ninguém tem coragem de me tocar
Se ao menos…
Tivesse a resposta entre sonos
Entre insónias
Cada vez mais do que meros murmúrios silenciosos
Por isso… tenho os dedos das mãos separados
E nada posso agarrar;
Um abraço, um sorriso, a palavra certa, o embuste de um pensamento dito em voz alta.
Nada
Nem cinzas
Só dias que se acumulam no fim de cada descanso
Entre a porta que deixo sempre aberta
E a janela sem fim.
Saí de manhã desta casa e risquei as paredes com os nós dos meus dedos
Tudo
Mesmo aquelas coisas que já não sei sentir
Talvez sejam cartas para alguém que eu deseje
Como tudo, personagens do que escrevo
Não são reais
Porque nunca estão felizes
Afundam-se entre os dedos e são frias
As ervas esmorecidas pelo rigor de um Outono estranho
Reflectem os meus passos
Riem de mim
Cada passo, um dia a menos, uma promessa a fel e escuridão
Ninguém tem coragem de me tocar
Se ao menos…
Tivesse a resposta entre sonos
Entre insónias
Cada vez mais do que meros murmúrios silenciosos
Por isso… tenho os dedos das mãos separados
E nada posso agarrar;
Um abraço, um sorriso, a palavra certa, o embuste de um pensamento dito em voz alta.
Nada
Nem cinzas
Só dias que se acumulam no fim de cada descanso
Entre a porta que deixo sempre aberta
E a janela sem fim.
Quarta-feira, Dezembro 08, 2010
Tenho um caderno onde escrevo, um telemóvel onde escrevo, um blogue, dois blogues, um deles secreto que nunca será revelado, tenho folhas e cadernos pela casa, onde escrevo, dois diários, vários heterónimos, muitos deles vivos e mortos ao mesmo tempo; tenho um bloco no carro, onde escrevo, uma carteira cheia de papéis escritos; uma guitarra escrita...
Quando vou à praia escrevo na areia, nos cafés escrevo com a colher na pires da chávena; no vidro embaciado, volto a escrever. O teu nome. Durante parte da minha vida, escrito em todo o lado, esse nome de quatro sílabas.
Escrevo tanto e já não sou capaz de falar; de dizer a única verdade que me importa.
Quando vou à praia escrevo na areia, nos cafés escrevo com a colher na pires da chávena; no vidro embaciado, volto a escrever. O teu nome. Durante parte da minha vida, escrito em todo o lado, esse nome de quatro sílabas.
Escrevo tanto e já não sou capaz de falar; de dizer a única verdade que me importa.
Canto de Eternidade parte menos um
Depois,
vou depois para esse rochedo frio e ventoso.
Não que sinta frio e frio.
Sinto o sangue bastante quente e os meus olhos atentos.
É raro.
Sentir a eternidade desta maneira. Como se não fosse um corpo, mas um eco
que desconhece outra forma que não a humana.
O gelo quebra-se debaixo dos meus pés. Parece o som de folhas secas ao sol.
Ainda não.
Quero deixar de sentir as mãos primeiro. Inclinar o meu tronco para o abismo, mirar as árvores esguias e compenetradas nas suas próprias seivas.
Quero aquilo que é fácil: deixar-me morrer outra vez.
Estou tão habituado que me dá vontade de rir...
Se soubesses o quão bem conheço os artifícios da morte...
Já não me consegue enganar. Nem preciso disfarçar. Ela sabe.
Troco-lhe as voltas e volto ao mesmo sítio. Este. Isolado. Quase sem luz.
Busco nos bolsos uma frase que escrevi há pouco.
É sobre aquele assunto. O único que não me deixa viver em condições.
Este lado é bonito. Outros ecos. Um sorriso sombrio que se desenha no granito e no xisto.
Belo silêncio de facas afiadas.
Não me julguem, ouçam, porque eu não grito.
Ah... a proximidade disso...
tenho medo...
hoje não...
Desço! Prometo que recolho ao meu quarto e fico quieto! Não grites comigo, por favor...
vou depois para esse rochedo frio e ventoso.
Não que sinta frio e frio.
Sinto o sangue bastante quente e os meus olhos atentos.
É raro.
Sentir a eternidade desta maneira. Como se não fosse um corpo, mas um eco
que desconhece outra forma que não a humana.
O gelo quebra-se debaixo dos meus pés. Parece o som de folhas secas ao sol.
Ainda não.
Quero deixar de sentir as mãos primeiro. Inclinar o meu tronco para o abismo, mirar as árvores esguias e compenetradas nas suas próprias seivas.
Quero aquilo que é fácil: deixar-me morrer outra vez.
Estou tão habituado que me dá vontade de rir...
Se soubesses o quão bem conheço os artifícios da morte...
Já não me consegue enganar. Nem preciso disfarçar. Ela sabe.
Troco-lhe as voltas e volto ao mesmo sítio. Este. Isolado. Quase sem luz.
Busco nos bolsos uma frase que escrevi há pouco.
É sobre aquele assunto. O único que não me deixa viver em condições.
Este lado é bonito. Outros ecos. Um sorriso sombrio que se desenha no granito e no xisto.
Belo silêncio de facas afiadas.
Não me julguem, ouçam, porque eu não grito.
Ah... a proximidade disso...
tenho medo...
hoje não...
Desço! Prometo que recolho ao meu quarto e fico quieto! Não grites comigo, por favor...
Terça-feira, Dezembro 07, 2010
Agarrei uma estrela
Do céu e plantei-a
Na terra
Cruzei as pernas à chinês e
Esperei que crescesse
Não dormi
Não comi
Não bebi
Até que a minha flor
Brotasse forte e luminosa
Quando o sol secou a
Terra, chorei para te
Regar, quando a noite
Gelou as tuas folhas
Abracei-te para te aquecer
E quando a lua iluminou
O céu, vi toda a tua
Graça e jurei
Nunca mais te abandonar.
1992
Do céu e plantei-a
Na terra
Cruzei as pernas à chinês e
Esperei que crescesse
Não dormi
Não comi
Não bebi
Até que a minha flor
Brotasse forte e luminosa
Quando o sol secou a
Terra, chorei para te
Regar, quando a noite
Gelou as tuas folhas
Abracei-te para te aquecer
E quando a lua iluminou
O céu, vi toda a tua
Graça e jurei
Nunca mais te abandonar.
1992
Beijo Antigo
Quente, não tão quente
Que me pudesse incendiar,
Mas súbito,
Inesperado,
Cru,
Sem ser rude
Suave e absoluto,
Analfabeto,
Porque me roubou todo o vocabulário
Feliz,
Porque me fez sentir vivo.
Que me pudesse incendiar,
Mas súbito,
Inesperado,
Cru,
Sem ser rude
Suave e absoluto,
Analfabeto,
Porque me roubou todo o vocabulário
Feliz,
Porque me fez sentir vivo.
desço
Desço
Entorpeço a luz
Interior
Dilacero as mãos
Embrulho-as
Em nós apertados
Distancio-me
Volátil sou, mas só hoje!
Quando me aproximo
de ti
Entorpeço a luz
Interior
Dilacero as mãos
Embrulho-as
Em nós apertados
Distancio-me
Volátil sou, mas só hoje!
Quando me aproximo
de ti
Terça-feira, Novembro 30, 2010
Dia
2010-11-30
Está frio. A noite tem cores que se semeiam na escuridão e não as temo. Fazem parte deste todo aritmético. Vejo arcos, pedras disformes e uniformes no silêncio de um intervalo de palavras. Há riso, há conversa. Os corações não batem, ardem. O teu, misterioso, escrito ao contrário na minha língua. Não sei. Nem quero saber o que se está a passar. Se conseguisse me abstrair do som ténue dos meus pensamentos através do barulho dos carros, da própria respiração, mas também não quero. Não quero conseguir. Nem tento. Substituo a coragem pela imaginação e imagino-me herói.
Atraso os segundos, irrompo pelos minutos e engano-os para que cessem de correr. Só quero que este pequeno momento, que passa despercebido aos veios da Natureza, não se perca em memórias e recordações. Traço no ar, com as pontas dos dedos, o que foi dito. Respiro as letras habituadas a tempestades silenciosas. Fico. Admiro as tuas mãos que não têm sombra. Sorrio. Tudo continua.
Malekith
Está frio. A noite tem cores que se semeiam na escuridão e não as temo. Fazem parte deste todo aritmético. Vejo arcos, pedras disformes e uniformes no silêncio de um intervalo de palavras. Há riso, há conversa. Os corações não batem, ardem. O teu, misterioso, escrito ao contrário na minha língua. Não sei. Nem quero saber o que se está a passar. Se conseguisse me abstrair do som ténue dos meus pensamentos através do barulho dos carros, da própria respiração, mas também não quero. Não quero conseguir. Nem tento. Substituo a coragem pela imaginação e imagino-me herói.
Atraso os segundos, irrompo pelos minutos e engano-os para que cessem de correr. Só quero que este pequeno momento, que passa despercebido aos veios da Natureza, não se perca em memórias e recordações. Traço no ar, com as pontas dos dedos, o que foi dito. Respiro as letras habituadas a tempestades silenciosas. Fico. Admiro as tuas mãos que não têm sombra. Sorrio. Tudo continua.
Malekith
exterior
Um pouco de paz, não interior
externa ao que sou
perder a sensação do tempo que é triste
solidificar-me num gesto
como uma escultura
e embaraçar-me com um sorriso.
externa ao que sou
perder a sensação do tempo que é triste
solidificar-me num gesto
como uma escultura
e embaraçar-me com um sorriso.
A Professora de Arte
Baseado na canção,
“The art teacher”,
De Rufus Wainwright.
Sentou-se no banco e olhou para lá da janela. A claridade era tanta que o vidro parecia sujo. As lágrimas não ajudavam. A tristeza impedia de ver mais além do que a sua própria tristeza. Era uma rapariga nova com o seu uniforme rígido comprimindo as formas do seu corpo. Era uma miúda sonhadora, quente nas emoções, reservada nos seus propósitos. Ao lado do banco de pedra, o seu saco de esgrima e a sua mala de pintura.
Nas paredes, Rubens, Rembrandt, Turner. Cópias que valem mais do que os originais. Para ela, uma singular rapariga do mar, eram os únicos tesouros nesta imensidão de coisas solitárias. O mundo era-lhe vazio.
Vislumbra por um momento as magnólias no largo jardim. As árvores entendem a tristeza como ninguém. Sabem.
Aquela brancura tão semelhante à neve, só podia ter vindo do Japão. As pétalas refulgindo sobre o cinzento dos ramos retorcidos. Uma árvore como uma família, os ramos mais velhos cuidando dos medos, as flores.
Cheira a óleo, acrílico, linça e outros produtos que não têm nome para ela. Devia ter trazido um pente. Os seus cabelos estão enriçados pela porcaria da humidade. Mas, para quê me embelezar se ninguém repara em mim? Porque é a beleza física tão importante?...
Ouve passos. Deve ser ela. A professora.
Tem idade para ser sua mãe, mas as suas feições são de uma miúda. Tem a pele tão branca e tão macia como as pétalas das magnólias lá fora. Tem a certeza que quando caminha na neve o seu corpo desaparece. É um anjo. A brancura dos anjos é inigualável.
Enxuga as lágrimas. Está perfeitamente pálida.
A pele da rapariga é branca, mas as veias são azuis. Não é perfeita. É, pensa, uma aberração. E os pintores gostam do que é extraordinário. A sua professora disse-lhe isso ontem. Não lhe perguntou nada. Pintam o horrendo e dão-lhe uma forma de beleza paralela.
- Bom dia.
A porta abriu-se como se fosse de veludo. Sem qualquer som. Trazia os cabelos pretos presos num gancho e a mala do costume debaixo do braço direito.
- Bom dia, professora.
- Hum. Foste a primeira a chegar…
- O Svenson magoou-se na aula de esgrima.
- Hum. Espero que esteja tudo bem com ele.
- Fez de propósito para terem pena dele.
- Não digas isso, Margot! É um rapaz com muita alma.
- Não sei. Ele não gosta de mim. Olha-me com demasiado silêncio.
- Contudo isso preocupa-te. Ele não gostar de ti. Senta-se ao teu lado…
- Insistiu. Não eu. – Suspirou. – Dispenso companhias incómodas.
- Os seres humanos nunca são incómodos, apenas as suas abordagens aos problemas. Pensa, Margot, nas pessoas que se cruzam no teu caminho, numa rua movimentada; tão perto, tocam-te e nem dás por ela.
Rumorejou como se fosse explodir. – Sabe. – Voltou a murmurar. – Quando era pequena, pensava que os adultos não tinham problemas, que a vida era mais fácil. Na minha errónea adolescência, percebo que esse pensamento foi um desperdício de tempo e bastante irracional.
- Não somos racionais em todos os momentos. Nem emocionais quando o devemos ser.
- Perdi tempo e o tempo que se perde é irrecuperável. Perdemos ainda mais tempo a tentar remendá-lo. Corrigi-lo.
- Tão negativa para uma idade tão provecta.
- Não. A Primavera deprime-me. Muita cor. Demasiadas imagens que os meus olhos não conseguem captar de uma só vez.
- Daí sermos dotados de observação. Podermos apreciar o que nos rodeia como se fosse um quadro. Ou pintá-lo como consequência dessas mesmas observações.
- Tão optimista para a idade que tem… - Contra-ironizou a moça.
- Margot… o sarcasmo não te fica bem. Pensa no florete nas aulas de esgrima. Se não tivesse a bola de chumbo a ocultar a ponta…
- Divaga, professora de arte. Divaga e só cá estamos as duas.
- Chegarão. Demorem o tempo que precisarem e tudo será perfeito.
Silenciou. O vento fresco acordou os ramos mais pesados e agitou-os como se fossem folhas leves de papel. Porém, sem som. A mudez da sala não a oprimia. Ridicularizava tudo o que pensava.
- Turner pintava como ninguém as cores da Primavera e do Verão. Quer dizer… houve outros, mas o valor que ele dava à luz…
- Devia ser um homem deprimido. Como eu.
- Não creio. Penso que era bastante sociável, para um inglês.
- Não gosto de ingleses. Deviam desaparecer do mapa. Todos.
- Porquê, Margot?
- Não gosto da cultura, das suas tradições, dos seus modos e do seu aspecto físico. São feios. Aberrações.
- Hum. A Humanidade para ti é uma aberração? Os pintores amam essas diferenças.
- Parte dela, professora de arte. Aberrações com oliveiras e seus ramos retorcidos. Eu sou uma aberração. Eu, Margot. Mas…, eu só disse que não gostava de ingleses, não da Humanidade. Aliás, os britânicos irritam-me. São mal resolvidos.
- Ai, rapariga. Tanta complexidade! Tantas janelas e portas fechadas! Não há luz nesse labirinto que construíste tão sozinha?
- Não é um labirinto. É a minha preservação. Sigo este caminho desde que tenho consciência que sou dona dos meus actos.
- Hum. Isso é bom, teres consciência do que és, do que fazes e do que queres para o futuro. Fervilham emoções dentro de ti… - Disse-o em surdina.
- O futuro é o segundo seguinte.
- Sim. Não há presente. Só passado e futuro. Por isso é que lamentamos, recordamos e fazemos das nossas vivências quadros irretratáveis.
- Como tal, professora de arte, todos os pintores são infelizes.
- Tenho de concordar contigo. Parcialmente. A arte é uma forma de resolver uma perturbação. Um distúrbio, mesmo que seja belo. Sem dor, sofrimento, ansiedade e até aquele suposto laivo de felicidade que nos leva a criar e não é mais do que angústia. A arte não existe.
- A arte morreu. Pelo menos parte dela.
- Como assim?
- No tempo dos gregos, a arte era uma forma de expressão para o povo, através dos deuses, mas sem conteúdo teocrático. Era uma forma de oferecer ao povo uma extensão das emoções, da imaginação. Depois, perdeu-se. Quando começou a ser exibida em teatros e se cobravam bilhetes para ver uma peça de teatro, uma ópera. Por aí… a arte morreu.
- Empalideceu.
- Eu toco piano, sabia?
- Não, Margot. Não sabia.
- Toco há alguns anos, mas seria incapaz de viver da música.
- Porquê?
- Porque estaria a assassinar a arte que vive dentro de mim. Gosto demasiado de música para a prostituir dentro de mim. Perderia o prazer.
- E os músicos que admiras? São prostitutos?
- Em parte sim, mas alguns distinguem-se por fazerem da arte, uma extensão de eles mesmos, quebrando regras.
- E isso legitima-os?
- Em parte, sim. Mesmo assim, a arte deve ser livre, o que não é o mesmo que espontaneidade. Nunca seria capaz de receber dinheiro ou outra forma de retribuição pela minha arte. Sendo boa ou má.
- A arte sobrevive ao dinheiro, Margot. Um quadro, mesmo depois de comprado e sendo exibido numa galeria, pode ser apreciado sem que em causa, esteja a sua legitimidade.
- Sim, mas a essência da arte, em todas elas, deve ser sempre como uma oferenda.
- Recebendo em troca, o apreço do público? Concordo contigo, mas há aspectos que deves pensar melhor.
- Tais como?
- Um quadro, por exemplo.
- Não ponho em causa os objectos da arte, os seus frutos. O artista nunca é genuíno.
- Sim. Um quadro que é pintado por alguém, com todo o prazer, árduo trabalho e alguém o obtém, mesmo que o objectivo do pintor não fosse vendê-lo. Consideras isso não-arte?
- Não. Considero isso segunda-arte.
- Tens sempre uma resposta pronta. Rebeldia instantânea.
- Não. O assunto é que se dirigiu na direcção do meu raciocínio. Eu penso, sabe, professora de arte.
- Ainda bem que o fazes. Porque a maior parte das pessoas, as poucas que pensam, reflectem sobre o que os outros pensam que é correcto e não deduzem. Pouca gente deduz, formula ideias, ousa pela diferença. Ser diferente não é ser uma aberração. É apenas um caminho que outros podem seguir. Na verdade ninguém é diferente.
- Indiferentes ficam. Gosto de pensar. Raciocinar. Pensar no que é estabelecido e reformular. Erro muito a pensar, porque às vezes contradigo pontos de vista através de impulsos de jacto e mais tarde percebo que errei. Admito que erro com frequência. Logo, deprimo-me. O único erro que repito com consciência.
- As pessoas que pensam para além do seu umbigo, não se deprimem, interiorizam-se. Vasculham de dentro para fora por soluções.
- Não fujo, mas descontrolo-me nas minhas buscas. Perco o rumo e isso faz com que perca a vontade.
- Agora estás a ser sensível, emocional. O Svenson ficaria impressionado com isso.
- O Svenson não pensa. É um rapaz idiota. Como todos os homens. Quase todos. Os homens inteligentes dedicam-se a artes maiores, a um saber menos rectilíneo. O Svenson é um esgrimista de segunda categoria. Um espadachim sem capa nem espada.
- Livre, queres tu dizer. – Entrou Svenson de mão ligada. – Eu sou um homem livre, não como na Grécia Antiga. Penso, não me deixo perturbar pela falta de soluções. Tu, Margot, iludes-te nas tuas próprias divagações.
- Meninos. Isto não é uma aula de filosofia. Arte! Pintura!
- Que eu adoro, professora de arte. – Sorriu Svenson. Os seus cabelos quase brancos e os olhos cor da água mais imperturbável simpatizavam com a maneira serena de ser da professora.
Margot esfolheou o caderno ruidosamente. Os suspiros seguiam-se uns atrás dos outros.
Outros alunos entraram, agrupando-se nas onze mesas da sala. Onze secretárias rodeadas de cópias de quadros famosos. Para eles, era como se fossem verdadeiros. Brilhavam mais do que os originais nos museus distantes. Podiam ser tocados na sua rugosidade, apreciados de perto e até levados para casa.
A professora de arte sentou-se. A luz da manhã abrilhantou as paletas pouco brancas junto à larga janela. Margot tapou o rosto com a mão esquerda e Svenson fechou os olhos, absorvendo com um sorriso toda aquela claridade.
- És um monstro.
- Eu, Margot? Tu é que cobres o rosto. Tens Porfíria?
- Idiota. Tenho asco de ti. Nem sempre, só quando és ignóbil. De resto és apenas suportável.
- Hoje vamos aprender as primeiras noções de luz na pintura da escola flamenca. – Interferiu a Professora.
- Vai ser lindo para ti. Já gostas tanto de luz que se um dia pintares um quadro será todo branco.
- O sarcasmo não te fica bem. És muito nova.
- Já me disseram isso. Sou precoce nas minhas atitudes, nos meus propósitos.
- Tens medo, Margot.
- De quê? – Elevou um pouco a voz para além do sussurro.
- Meninos… a filosofia fica para o intervalo.
- Vês, idiota? Não quero ser a segunda melhor da turma.
- Como se isso fosse um problema para ti…
- Cala-te, cabelo amarelo.
Calaram-se. Rembrandt e a luz. A eloquência da professora eclodia naqueles pueris corações como uma nova luz. Ninguém melhor do que aquela dama branca para explicar a emotividade da arte.
Mas, menor do que a arte, eram os conflitos interiores. Como tinta sobre tinta numa parede que se quer branca.
Margot desafiava a paciência dos seus semelhantes e Svenson transparecia-se de quietude para com os outros.
Para ele as aulas de arte eram uma continuidade da sua sensibilidade e imaginação. Para Margot, a transposição do seu próprio eu.
- Não contarei nada a ninguém, Margot.
- O quê?
- Do teu florete.
- Quem tem o meu florete?
- Tiraste a protecção que eu vi.
- Estava irritada.
- Sim. Atiraste a arma para chão ou melhor, na direcção da minha mão. Eu sei que me viste debruçado sobre as minhas luvas quando a arremessaste.
- Não foi de propósito. Não te faças de vítima.
- Não. – Sorriu rodopiando o lápis entre os dedos. – Tu é que estás sempre a pensar que as pessoas que te rodeiam são vítimas, propagandistas de autocompaixão. Devias pensar essas coisas para ti. Pensar arduamente, até perceberes que cada um vive como quer, e não como um mártir.
- Foi sem querer. Desculpa. De facto vi a tua mão. – Baixou a cabeça. O seu semblante enegreceu. – Quanto tempo vais ficar assim?
- Dois, três dias. Foi ligeiro. Foi mais o embate. Não te preocupes. Eu não me ralo se perder umas aulas de esgrima. Sou de segunda categoria.
- Não és muito bom nisso, lá isso é verdade…
- Pois não. Mas, gosto muito de esgrimir.
- É o que eu digo: espadachim de beco.
- Quando a aula acabar…
- Que tem o fim da aula?
- Vens comigo a um lugar?
- Para quê?
- Sem perguntas. No jardim a dois minutos do pátio.
- Pode ser. Sempre é uma maneira de compensar o… mal que te fiz.
- Sou canhoto. Por isso, não é grave.
- Também sou canhota. Quando descobri que escrevia de um modo diferente das outras pessoas, pensei que era única no mundo!
- Também eu! Era ridículo. Mas, é uma característica que me oferece algum orgulho.
- Orgulho?!
- Sim e não. Talvez, orgulho seja uma palavra forte. Dá-me prazer ter esta diferença.
- As diferenças…
A professora interrompe a aula.
- Hoje ficamos por aqui. Mais cedo do que é costume. Podem sair, menos tu, Svenson. Cinco minutos do teu tempo.
- Sim.
Saíram todos. Svenson, tímido, encostou-se numa mesa da primeira linha de secretárias.
- Gostei do teu esboço. Muito profundo, quase verbal.
- Obrigado, professora de arte.
- Não tens de agradecer. O talento é teu. Pedi-te estes cinco minutos, por causa de Margot.
- Margot?
- Está perturbada. Implodindo continuamente para dentro de si mesma. Precisa de um amigo. Tu és-lhe próximo.
- Ela rejeita a amizade. Pedi-lhe que viesse ter comigo ao jardim do pátio. Um dia deixarei de insistir. Margot talha-se para a solidão eterna.
- Bom, faz isso. – Sorriu recolhendo os cadernos para dentro da pasta. – Tenho de ir. Um resto de bom dia para ti, Svenson.
- Para si também, professora de arte.
O céu enegrecera-se. Porém estava um dia silencioso. Quase mudo e adormecido.
No pátio.
- Cá estou. O que queres de mim?
- Conversar.
- Pois bem, temos algum tempo, que me é sempre precioso. Espero que entendas isso, Svenson.
- Entendo.
Da janela a professora de arte, observava os dois com uma tela ao seu lado. Um pincel banhado a vermelho permanecia imóvel no ar, pertencendo a um antebraço forte e rígido como um osso de um cadáver.
Um sorriso maléfico coloriu a sua fronte. A palidez rude e marmórea atravessava a transparência do vidro secando as roseiras até à raiz.
Não havia nada mais dissimulado, e até belo, do que uma aparência apolinia transformada numa sombra brilhante. O pincel carregado com rubor, a mão sem tremer, o sorriso lacerante e gélido. A professora de arte parecia esculpir-se a si mesma e nada interferia na sua lapidação. Uma bela peça de alvenaria, por certo.
Margot proferiu palavras nervosas. Demasiado cruéis para o pobre Svenson conseguir tragar de uma só vez. Abriu o saco poisado no chão e desembainhou o florete. Sem protecção. Margot recuou. Susteve como pode a respiração. Olhos firmes nos do rapaz, agachou-se de cócoras e tirou a sua espada.
Num só golpe, feriram-se mutuamente, no mesmo instante de tempo.
Mortal. Desferido o vento, o som, o azul do céu, ficaram dois fios de sangue escorrendo nos peitos brancos. Um pequeno círculo como um selo num envelope naqueles peitos tão brancos!
Tombam um sobre o outro. De pé. Sem caírem. Apenas as espadas, impotentes em reflectirem qualquer claridade.
A professora de arte inicia a obra. O único original que fará parte daquelas paredes.
Fim
Paulo Malekith Silva
2010-09-08
“The art teacher”,
De Rufus Wainwright.
Sentou-se no banco e olhou para lá da janela. A claridade era tanta que o vidro parecia sujo. As lágrimas não ajudavam. A tristeza impedia de ver mais além do que a sua própria tristeza. Era uma rapariga nova com o seu uniforme rígido comprimindo as formas do seu corpo. Era uma miúda sonhadora, quente nas emoções, reservada nos seus propósitos. Ao lado do banco de pedra, o seu saco de esgrima e a sua mala de pintura.
Nas paredes, Rubens, Rembrandt, Turner. Cópias que valem mais do que os originais. Para ela, uma singular rapariga do mar, eram os únicos tesouros nesta imensidão de coisas solitárias. O mundo era-lhe vazio.
Vislumbra por um momento as magnólias no largo jardim. As árvores entendem a tristeza como ninguém. Sabem.
Aquela brancura tão semelhante à neve, só podia ter vindo do Japão. As pétalas refulgindo sobre o cinzento dos ramos retorcidos. Uma árvore como uma família, os ramos mais velhos cuidando dos medos, as flores.
Cheira a óleo, acrílico, linça e outros produtos que não têm nome para ela. Devia ter trazido um pente. Os seus cabelos estão enriçados pela porcaria da humidade. Mas, para quê me embelezar se ninguém repara em mim? Porque é a beleza física tão importante?...
Ouve passos. Deve ser ela. A professora.
Tem idade para ser sua mãe, mas as suas feições são de uma miúda. Tem a pele tão branca e tão macia como as pétalas das magnólias lá fora. Tem a certeza que quando caminha na neve o seu corpo desaparece. É um anjo. A brancura dos anjos é inigualável.
Enxuga as lágrimas. Está perfeitamente pálida.
A pele da rapariga é branca, mas as veias são azuis. Não é perfeita. É, pensa, uma aberração. E os pintores gostam do que é extraordinário. A sua professora disse-lhe isso ontem. Não lhe perguntou nada. Pintam o horrendo e dão-lhe uma forma de beleza paralela.
- Bom dia.
A porta abriu-se como se fosse de veludo. Sem qualquer som. Trazia os cabelos pretos presos num gancho e a mala do costume debaixo do braço direito.
- Bom dia, professora.
- Hum. Foste a primeira a chegar…
- O Svenson magoou-se na aula de esgrima.
- Hum. Espero que esteja tudo bem com ele.
- Fez de propósito para terem pena dele.
- Não digas isso, Margot! É um rapaz com muita alma.
- Não sei. Ele não gosta de mim. Olha-me com demasiado silêncio.
- Contudo isso preocupa-te. Ele não gostar de ti. Senta-se ao teu lado…
- Insistiu. Não eu. – Suspirou. – Dispenso companhias incómodas.
- Os seres humanos nunca são incómodos, apenas as suas abordagens aos problemas. Pensa, Margot, nas pessoas que se cruzam no teu caminho, numa rua movimentada; tão perto, tocam-te e nem dás por ela.
Rumorejou como se fosse explodir. – Sabe. – Voltou a murmurar. – Quando era pequena, pensava que os adultos não tinham problemas, que a vida era mais fácil. Na minha errónea adolescência, percebo que esse pensamento foi um desperdício de tempo e bastante irracional.
- Não somos racionais em todos os momentos. Nem emocionais quando o devemos ser.
- Perdi tempo e o tempo que se perde é irrecuperável. Perdemos ainda mais tempo a tentar remendá-lo. Corrigi-lo.
- Tão negativa para uma idade tão provecta.
- Não. A Primavera deprime-me. Muita cor. Demasiadas imagens que os meus olhos não conseguem captar de uma só vez.
- Daí sermos dotados de observação. Podermos apreciar o que nos rodeia como se fosse um quadro. Ou pintá-lo como consequência dessas mesmas observações.
- Tão optimista para a idade que tem… - Contra-ironizou a moça.
- Margot… o sarcasmo não te fica bem. Pensa no florete nas aulas de esgrima. Se não tivesse a bola de chumbo a ocultar a ponta…
- Divaga, professora de arte. Divaga e só cá estamos as duas.
- Chegarão. Demorem o tempo que precisarem e tudo será perfeito.
Silenciou. O vento fresco acordou os ramos mais pesados e agitou-os como se fossem folhas leves de papel. Porém, sem som. A mudez da sala não a oprimia. Ridicularizava tudo o que pensava.
- Turner pintava como ninguém as cores da Primavera e do Verão. Quer dizer… houve outros, mas o valor que ele dava à luz…
- Devia ser um homem deprimido. Como eu.
- Não creio. Penso que era bastante sociável, para um inglês.
- Não gosto de ingleses. Deviam desaparecer do mapa. Todos.
- Porquê, Margot?
- Não gosto da cultura, das suas tradições, dos seus modos e do seu aspecto físico. São feios. Aberrações.
- Hum. A Humanidade para ti é uma aberração? Os pintores amam essas diferenças.
- Parte dela, professora de arte. Aberrações com oliveiras e seus ramos retorcidos. Eu sou uma aberração. Eu, Margot. Mas…, eu só disse que não gostava de ingleses, não da Humanidade. Aliás, os britânicos irritam-me. São mal resolvidos.
- Ai, rapariga. Tanta complexidade! Tantas janelas e portas fechadas! Não há luz nesse labirinto que construíste tão sozinha?
- Não é um labirinto. É a minha preservação. Sigo este caminho desde que tenho consciência que sou dona dos meus actos.
- Hum. Isso é bom, teres consciência do que és, do que fazes e do que queres para o futuro. Fervilham emoções dentro de ti… - Disse-o em surdina.
- O futuro é o segundo seguinte.
- Sim. Não há presente. Só passado e futuro. Por isso é que lamentamos, recordamos e fazemos das nossas vivências quadros irretratáveis.
- Como tal, professora de arte, todos os pintores são infelizes.
- Tenho de concordar contigo. Parcialmente. A arte é uma forma de resolver uma perturbação. Um distúrbio, mesmo que seja belo. Sem dor, sofrimento, ansiedade e até aquele suposto laivo de felicidade que nos leva a criar e não é mais do que angústia. A arte não existe.
- A arte morreu. Pelo menos parte dela.
- Como assim?
- No tempo dos gregos, a arte era uma forma de expressão para o povo, através dos deuses, mas sem conteúdo teocrático. Era uma forma de oferecer ao povo uma extensão das emoções, da imaginação. Depois, perdeu-se. Quando começou a ser exibida em teatros e se cobravam bilhetes para ver uma peça de teatro, uma ópera. Por aí… a arte morreu.
- Empalideceu.
- Eu toco piano, sabia?
- Não, Margot. Não sabia.
- Toco há alguns anos, mas seria incapaz de viver da música.
- Porquê?
- Porque estaria a assassinar a arte que vive dentro de mim. Gosto demasiado de música para a prostituir dentro de mim. Perderia o prazer.
- E os músicos que admiras? São prostitutos?
- Em parte sim, mas alguns distinguem-se por fazerem da arte, uma extensão de eles mesmos, quebrando regras.
- E isso legitima-os?
- Em parte, sim. Mesmo assim, a arte deve ser livre, o que não é o mesmo que espontaneidade. Nunca seria capaz de receber dinheiro ou outra forma de retribuição pela minha arte. Sendo boa ou má.
- A arte sobrevive ao dinheiro, Margot. Um quadro, mesmo depois de comprado e sendo exibido numa galeria, pode ser apreciado sem que em causa, esteja a sua legitimidade.
- Sim, mas a essência da arte, em todas elas, deve ser sempre como uma oferenda.
- Recebendo em troca, o apreço do público? Concordo contigo, mas há aspectos que deves pensar melhor.
- Tais como?
- Um quadro, por exemplo.
- Não ponho em causa os objectos da arte, os seus frutos. O artista nunca é genuíno.
- Sim. Um quadro que é pintado por alguém, com todo o prazer, árduo trabalho e alguém o obtém, mesmo que o objectivo do pintor não fosse vendê-lo. Consideras isso não-arte?
- Não. Considero isso segunda-arte.
- Tens sempre uma resposta pronta. Rebeldia instantânea.
- Não. O assunto é que se dirigiu na direcção do meu raciocínio. Eu penso, sabe, professora de arte.
- Ainda bem que o fazes. Porque a maior parte das pessoas, as poucas que pensam, reflectem sobre o que os outros pensam que é correcto e não deduzem. Pouca gente deduz, formula ideias, ousa pela diferença. Ser diferente não é ser uma aberração. É apenas um caminho que outros podem seguir. Na verdade ninguém é diferente.
- Indiferentes ficam. Gosto de pensar. Raciocinar. Pensar no que é estabelecido e reformular. Erro muito a pensar, porque às vezes contradigo pontos de vista através de impulsos de jacto e mais tarde percebo que errei. Admito que erro com frequência. Logo, deprimo-me. O único erro que repito com consciência.
- As pessoas que pensam para além do seu umbigo, não se deprimem, interiorizam-se. Vasculham de dentro para fora por soluções.
- Não fujo, mas descontrolo-me nas minhas buscas. Perco o rumo e isso faz com que perca a vontade.
- Agora estás a ser sensível, emocional. O Svenson ficaria impressionado com isso.
- O Svenson não pensa. É um rapaz idiota. Como todos os homens. Quase todos. Os homens inteligentes dedicam-se a artes maiores, a um saber menos rectilíneo. O Svenson é um esgrimista de segunda categoria. Um espadachim sem capa nem espada.
- Livre, queres tu dizer. – Entrou Svenson de mão ligada. – Eu sou um homem livre, não como na Grécia Antiga. Penso, não me deixo perturbar pela falta de soluções. Tu, Margot, iludes-te nas tuas próprias divagações.
- Meninos. Isto não é uma aula de filosofia. Arte! Pintura!
- Que eu adoro, professora de arte. – Sorriu Svenson. Os seus cabelos quase brancos e os olhos cor da água mais imperturbável simpatizavam com a maneira serena de ser da professora.
Margot esfolheou o caderno ruidosamente. Os suspiros seguiam-se uns atrás dos outros.
Outros alunos entraram, agrupando-se nas onze mesas da sala. Onze secretárias rodeadas de cópias de quadros famosos. Para eles, era como se fossem verdadeiros. Brilhavam mais do que os originais nos museus distantes. Podiam ser tocados na sua rugosidade, apreciados de perto e até levados para casa.
A professora de arte sentou-se. A luz da manhã abrilhantou as paletas pouco brancas junto à larga janela. Margot tapou o rosto com a mão esquerda e Svenson fechou os olhos, absorvendo com um sorriso toda aquela claridade.
- És um monstro.
- Eu, Margot? Tu é que cobres o rosto. Tens Porfíria?
- Idiota. Tenho asco de ti. Nem sempre, só quando és ignóbil. De resto és apenas suportável.
- Hoje vamos aprender as primeiras noções de luz na pintura da escola flamenca. – Interferiu a Professora.
- Vai ser lindo para ti. Já gostas tanto de luz que se um dia pintares um quadro será todo branco.
- O sarcasmo não te fica bem. És muito nova.
- Já me disseram isso. Sou precoce nas minhas atitudes, nos meus propósitos.
- Tens medo, Margot.
- De quê? – Elevou um pouco a voz para além do sussurro.
- Meninos… a filosofia fica para o intervalo.
- Vês, idiota? Não quero ser a segunda melhor da turma.
- Como se isso fosse um problema para ti…
- Cala-te, cabelo amarelo.
Calaram-se. Rembrandt e a luz. A eloquência da professora eclodia naqueles pueris corações como uma nova luz. Ninguém melhor do que aquela dama branca para explicar a emotividade da arte.
Mas, menor do que a arte, eram os conflitos interiores. Como tinta sobre tinta numa parede que se quer branca.
Margot desafiava a paciência dos seus semelhantes e Svenson transparecia-se de quietude para com os outros.
Para ele as aulas de arte eram uma continuidade da sua sensibilidade e imaginação. Para Margot, a transposição do seu próprio eu.
- Não contarei nada a ninguém, Margot.
- O quê?
- Do teu florete.
- Quem tem o meu florete?
- Tiraste a protecção que eu vi.
- Estava irritada.
- Sim. Atiraste a arma para chão ou melhor, na direcção da minha mão. Eu sei que me viste debruçado sobre as minhas luvas quando a arremessaste.
- Não foi de propósito. Não te faças de vítima.
- Não. – Sorriu rodopiando o lápis entre os dedos. – Tu é que estás sempre a pensar que as pessoas que te rodeiam são vítimas, propagandistas de autocompaixão. Devias pensar essas coisas para ti. Pensar arduamente, até perceberes que cada um vive como quer, e não como um mártir.
- Foi sem querer. Desculpa. De facto vi a tua mão. – Baixou a cabeça. O seu semblante enegreceu. – Quanto tempo vais ficar assim?
- Dois, três dias. Foi ligeiro. Foi mais o embate. Não te preocupes. Eu não me ralo se perder umas aulas de esgrima. Sou de segunda categoria.
- Não és muito bom nisso, lá isso é verdade…
- Pois não. Mas, gosto muito de esgrimir.
- É o que eu digo: espadachim de beco.
- Quando a aula acabar…
- Que tem o fim da aula?
- Vens comigo a um lugar?
- Para quê?
- Sem perguntas. No jardim a dois minutos do pátio.
- Pode ser. Sempre é uma maneira de compensar o… mal que te fiz.
- Sou canhoto. Por isso, não é grave.
- Também sou canhota. Quando descobri que escrevia de um modo diferente das outras pessoas, pensei que era única no mundo!
- Também eu! Era ridículo. Mas, é uma característica que me oferece algum orgulho.
- Orgulho?!
- Sim e não. Talvez, orgulho seja uma palavra forte. Dá-me prazer ter esta diferença.
- As diferenças…
A professora interrompe a aula.
- Hoje ficamos por aqui. Mais cedo do que é costume. Podem sair, menos tu, Svenson. Cinco minutos do teu tempo.
- Sim.
Saíram todos. Svenson, tímido, encostou-se numa mesa da primeira linha de secretárias.
- Gostei do teu esboço. Muito profundo, quase verbal.
- Obrigado, professora de arte.
- Não tens de agradecer. O talento é teu. Pedi-te estes cinco minutos, por causa de Margot.
- Margot?
- Está perturbada. Implodindo continuamente para dentro de si mesma. Precisa de um amigo. Tu és-lhe próximo.
- Ela rejeita a amizade. Pedi-lhe que viesse ter comigo ao jardim do pátio. Um dia deixarei de insistir. Margot talha-se para a solidão eterna.
- Bom, faz isso. – Sorriu recolhendo os cadernos para dentro da pasta. – Tenho de ir. Um resto de bom dia para ti, Svenson.
- Para si também, professora de arte.
O céu enegrecera-se. Porém estava um dia silencioso. Quase mudo e adormecido.
No pátio.
- Cá estou. O que queres de mim?
- Conversar.
- Pois bem, temos algum tempo, que me é sempre precioso. Espero que entendas isso, Svenson.
- Entendo.
Da janela a professora de arte, observava os dois com uma tela ao seu lado. Um pincel banhado a vermelho permanecia imóvel no ar, pertencendo a um antebraço forte e rígido como um osso de um cadáver.
Um sorriso maléfico coloriu a sua fronte. A palidez rude e marmórea atravessava a transparência do vidro secando as roseiras até à raiz.
Não havia nada mais dissimulado, e até belo, do que uma aparência apolinia transformada numa sombra brilhante. O pincel carregado com rubor, a mão sem tremer, o sorriso lacerante e gélido. A professora de arte parecia esculpir-se a si mesma e nada interferia na sua lapidação. Uma bela peça de alvenaria, por certo.
Margot proferiu palavras nervosas. Demasiado cruéis para o pobre Svenson conseguir tragar de uma só vez. Abriu o saco poisado no chão e desembainhou o florete. Sem protecção. Margot recuou. Susteve como pode a respiração. Olhos firmes nos do rapaz, agachou-se de cócoras e tirou a sua espada.
Num só golpe, feriram-se mutuamente, no mesmo instante de tempo.
Mortal. Desferido o vento, o som, o azul do céu, ficaram dois fios de sangue escorrendo nos peitos brancos. Um pequeno círculo como um selo num envelope naqueles peitos tão brancos!
Tombam um sobre o outro. De pé. Sem caírem. Apenas as espadas, impotentes em reflectirem qualquer claridade.
A professora de arte inicia a obra. O único original que fará parte daquelas paredes.
Fim
Paulo Malekith Silva
2010-09-08
Estigma - Poema a uma sensação
mais forte do que a razão
mas forte do que a mentira
é a verdade que antevejo
nos teus olhos
como um acidente de carro
como uma facada
a minha arma preferida
é quando me revejo nos teus olhos
mastigo vidro
e como os meus dedos
não sou daqueles que foge das mentiras
faço a barba
como maçãs como se fossem rebuçados
perdi a minha alma para
os teus olhos
David Bowie
tem as coxas tatuadas de rosa
ó céus!
não me deixes com este estigma
ó céus!
não quero estigmas
só quero que me vasculhes.
mas forte do que a mentira
é a verdade que antevejo
nos teus olhos
como um acidente de carro
como uma facada
a minha arma preferida
é quando me revejo nos teus olhos
mastigo vidro
e como os meus dedos
não sou daqueles que foge das mentiras
faço a barba
como maçãs como se fossem rebuçados
perdi a minha alma para
os teus olhos
David Bowie
tem as coxas tatuadas de rosa
ó céus!
não me deixes com este estigma
ó céus!
não quero estigmas
só quero que me vasculhes.
Terça-feira, Novembro 23, 2010
O Duelista
O vento frio anunciava um prolongamento Inverno. Uma cor púrpura revolvia o céu como se fosse uma colher numa massa de bolo.
Mais distante, raiando com timidez, um enorme ovo espalhava-se pela gema do céu.
Os papéis na secretária aparentavam desordem. Riscados a vermelho, a azul, a preto, mutilados por mãos que se julgariam zangadas.
Desde que o seu secretário foi decesso que a confusão fazia parte do seu dia-a-dia.
O último duelo antes de uma temporada em Arles ou Nice.
Olhava para o jardim aparado sem marcas de lâmina e para o cedro doente que um dos seus empregados tentava recuperar para que pudesse aguentar o avizinhado Inverno.
No gira-discos, Seventy-Four (version I[1]), de John Cage. Doze minutos e quinze segundos de extrema meditação.
Olhava o jardim. A peça cessa por dois segundos. Inspira profundamente. Gostaria de guardar esse ar nos pulmões para sempre.
Expira com dolência. Abana a cabeça e volta a sentar-se no cadeirão da secretária.
Estava farto. Incompreensivelmente farto.
Dezenas de folhas escritas diante de si, mas todas sem significado. Nesta idade, os objectos mais mundanos tornam-se insuportáveis e inúteis. Nada desaparece ou se transforma. Tudo tretas! As coisas existem como um tormento!
Atira as folhas ao chão. Uma dela fica entre o vazio e a mesa. Duas linhas. Evita que a curiosidade o domine, mas é impossível. Percebe que será sempre um derrotado nesse campo de batalha; é um curioso, estudioso, insidioso.
Duelo. Dia vinte e nove de Fevereiro ao sol do meio-dia no jardim Sem Delícias. Hoje.
Assinado: A. M.
Quem seria? A defesa da honra podia esperar para a semana que vem. Estava tão cansado…
Chamou o seu secretário.
- De quem é isto, Jorge? – Inquiriu cansado.
- Senhor, é semi-anónimo. – Respondeu prontamente. – Se me permite, parece cansado.
- Sim, Jorge. Cada vez mais. É um desagrado para a alma continuar a travar duelos para pessoas que querem defender a honra, mas que não tem tempo para se enfrentarem cara a cara. No fundo, são cobardes duas vezes. Alguns, não todos. Como este, por exemplo!
- Pagam bem, senhor…
- É verdade. Tenho de admitir que foi graças a isso que consegui todo este fausto que me sustenta. Mas, o cansaço, o receio de perder o meu primeiro duelo, é mais do que um pensamento, é uma evidência. Uma presença, porém ainda esquálida.
Ficou só. Olhou o armário das espadas. Bruxuleavam pouco à luz rarefeita daquela estranha manhã.
A prata dos florestes estava suja. Gostava de as ver assim, como se lhes desse um uso frequente. Pouco adiantava a luz, portanto…
Saiu. Um vento forte de Norte limpava o céu apressadamente como se fosse receber visitas. As magnólias em flor permaneciam intactas à violência como se estivessem fechadas numa redoma de vidro imperceptível.
Uma mulher a cavalo. Cabelos negros, pele tão branca como as flores daquelas árvores. A trote pelo caminho que atravessava a sua pequena propriedade e que tornara publico para servir toda agente da região e não só. Nunca a tinha visto.
Apertou a casaca e avançou na sua direcção.
Voltou a abrir a casaca para se demonstrar destemido em relação ao frio. Depois da doença não gostava de arriscar, mas era uma belíssima mulher, embora àquela distância não fosse capaz de discernir as feições do seu rosto.
Ela pára. Ágil como um flamingo destrona do cavalo. Estava descalça. Os pés amortecidos pela relva húmida desapareceram por instantes. Como uma árvore não fez um movimento.
A passos largos chegou até ela.
- Bom dia.
- Podia ser melhor. Deveria ser melhor.
- Noto uma inquietação na sua voz.
- Quem é o senhor?
- O seu nome é de uma flor, tenho a certeza.
Riu.
Os cabelos pretos taparam-lhe o rosto e não foi capaz de observar se havia corado com aquela afirmação.
Uma mulher que cora é uma mulher que tem o coração pronto a abrir-se para as palavras.
Belo ventre. Liso e puro como uma lençol lavado sobre uma cama.
- É a sua casa?
- De todos os que lá são bem-vindos.
- Não dá uma resposta clara.
- Não tanto como a palidez da sua pele.
Corou. As mãos pentearam os cabelos em perfeita sincronização.
- Alva.
- Balder.
Silêncio.
Os dedos dos pés em movimento.
As mãos sem ter para onde fugir.
- Muito prazer em te conhecer. O tratamento por tu é sempre uma consequência quando se ultrapassa o muito prazer.
- A intuição feminina sempre me fascinou. Então quando faz parte das palavras, ainda melhor.
- Tenho de ir. Resguardar a égua, e preparar-me para…
- Tens de ir, entendo. Prepara-te. Amanhã o jardim será mais uma vez o meu caminho.
- O meu não sei. Sincera…
- … Mente o coração que resiste.
Voltou para o cavalo e desapareceu na curva do jardim onde os carvalhos têm mais idade e ocultam quem lá entra.
Preparou-se.
Desta vez não usaria o fato de protecção, nem a máscara.
Tinha a certeza de que não combateria mais. Ainda por cima, o quase anónimo que iria enfrentar deixava-o sem modo de preparação.
Em branco. Defender alguém que não se atrevia a duelar-se era cansável.
Não se olhou ao espelho. O seu olhar como fel saboreando cada reflexo.
Tempo de ir.
Jorge, a sua testemunha. Acompanhara-o sempre nos últimos 15 anos.
O jardim cheirava a estrume. Os jardineiros haviam revolvido a terra recentemente. Não o incomodava.
Ela. Entre os arbustos, não se escondendo.
- Espera aqui, Jorge.
- Voltamos a nos encontrar.
- Sim, Balder. Por uma outra razão.
- Cálculo que sejas testemunha do que aqui se vai passar.
- Não.
- Não?
- M. A.
- Como?
- Sou eu. Martina Alva.
- Entendo. Então serei eu o teu duelista…
- Sim. Não posso combater. Não aprovo violência.
- Não aprovas?! Mas, contrataste-me para tal!
- Sim. O meu padrinho tem o acordo. Não haverá morte. O primeiro a ser ferido será dado como derrotado.
- Sabia que este meu último duelo seria bizarro. – Pausou olhando-o profundamente nos olhos. – Quem é o meu/seu adversário?
- Primeiro as razões. A razão, melhor dizendo. – Sorriu-lhe como ninguém lhe havia antes sorrido. – Traiu-me. Beijou outra mulher e assisti a tudo; às palavras, aos gestos, ao murmurar de dois apaixonados. Apaixonados no sentido de paixão, de desejo carnal, Balder. Quero a sua desonra. Desse homem a quem chamei de marido e a quem entreguei as minhas emoções. – Empalideceu e os sues olhos ficaram negros como carvão em pó. – Há testemunhas, padrinhos e tu.
- Não garanto a vitória. Parece-me estranho tudo isto.
- Um duelo é por um acaso uma banalidade?
- Um ferimento…
- Florete. Foi a arma que escolhi, visto ter sido eu a ofendida.
- Conversaram?
- Quis o caminho mais difícil.
- Bom…
- Sempre esta curiosidade parva pela dificuldade.
- De todo, Alva. Sou um desafiador de honra.
Chegou. Vestido com um fato de trabalho, altivo e seguro de si mesmo.
Apressou-se a agarrar o florete, e pelo gesto, Balder percebeu que se tratava de um ignorante no que dizia respeito a espadas.
Não vou querer ferir este homem à primeira investida, pensou.
Balder sentia um ardor na respiração, não suficientemente grande para lhe chamar de paixão à primeira impressão, mas mais à primeira expressão. Alva descendo do cavalo. Como uma rainha sem reino, com toda a Terra para lavrar numa intrépida conquista.
- Meu nome é Loki e desafio-o para um duelo. – Gritou bem alto. – A minha esposa é uma má intérprete da amizade, senhor. Garanto-lhe!
As veias incharam no seu alvo pescoço aristocrata. Nada disso interferia no manejo mental do que se seguiria.
Testemunhas e padrinhos em silêncio.
Jorge lendo o último capítulo de um livro secular.
Como sempre, uma grafonola. John Cage outra vez no seu mandamento. Loki reconheceu a peça e até disse, sem gabarolice, que a tinha visto ao vivo numa cidade grande do outro lado do Atlântico.
Balder agraciou-o, dizendo-lhe que tinha bom gosto. Depois sorriu. Um sorriso negro e impenetrável. Calçou as luvas que tinha dito a si mesmo que não calçaria e embainhou o florete ao alto.
Um fio de suor gélido dividiu o rosto de Loki ao meio. A sua pele parecia de vidro de má qualidade. Alva sorria entre dentes. A vingança era-lhe saborosa e o seu olhar igualmente negro. Como uma tempestade muda.
- En Garde! – Vociferou Loki.
- Calma, senhor. Isto não é esgrima. – Riram todos, mesmo as testemunhas adversárias. Encaravam aquilo como uma brincadeira. Um vil despropósito de meninos ricos.
Fora assim que Balder havia feito fortuna; com duelos. Gente cobarde que queria defender a honra, mas que lhe fazia impressão manejar uma arma. Lidar com a hipocrisia, sem fazer parte dela, era um sabor amargo, uma visão inóspita de um enorme vazio. Enfim, ossos do ofício, como muitas vezes lhe dizia o seu fiel secretário.
Jorge virou a página. Depois voltou atrás e sorriu. Deliciava-se com aquela leitura espontânea de luz e muita cor. Secular. Já não se escrevem livros assim, pensava.
O combate começou. Alva apertou as mãos uma na outra. Vestida de branco, parecia um arauto da compaixão. Cabelos negros e olhos tão azuis como o mar mais profundo.
A música. O som dos cucos e das andorinhas. O silvo dos corações batendo para fora dos peitos.
Loki esforçava-se para impressionar. Parecia fatigado e ainda só tinham decorrido alguns segundos. Balder mal segurava o seu florete. Fazia dele um veneno peçonhento.
Alva avançou na direcção do seu padrinho e sussurrou-lhe algo ao ouvido. Este acedeu afirmativamente com a cabeça. Mordeu o lábio, numa pequena ansiedade que a descrevia como uma mulher impossível de ser entendida por completo.
Balder bailava. Quando as lâminas se tocavam, Loki recuava. Tentava recuperar o fôlego e voltava ao ataque, grunhindo e vociferando calão.
Seventy-Four (version II[2]), doze minutos e cinco segundos de corrida sem respirar. Nos últimos segundos, como sempre, desferiria o golpe fatal. Neste caso, nunca mortal. Se bem que tal já lhe houvesse ocorrido no passado; matar.
Palavra indestrutível: matar. Matar. Matar! MATAR!
Uma pétala branca de magnólia tomba aos pés de Alva. Tão leve e já tão morta. Sobressalta-se. O mecanismo de defesa impele-a para trás. Loki distrai-se. Balder hesita em golpear aquele pobre homem orgulhoso.
Quando regressa ao combate, Loki tem a ponta do florete na sua garganta.
A canção termina.
Jorge encerra o livro com suavidade. A brisa vinda de Sul seca os suores frios nos rostos dos presentes. O tempo parou.
Balder afasta a arma, faz uma vénia sorridente, e Loki, sem hesitar golpeia-o no peito.
Um botão de sangue manchou aquela camisa branca. Sangue negro e silencioso.
Lábios entreabertos como uma ameixa bicada por pardais e inchada ao calor do sol.
- Senhor! Porque o golpeou? Estava tecnicamente derrotado! – Disse o seu padrinho de duelo.
- Não sei… - O florete caiu pelo chão. – Sinceramente não sei. Perdi. Na realidade, perdi. Venceu-me o orgulho.
Jorge acudiu o seu senhor. Nada de grave. Apenas um ferimento ligeiro no diafragma. Naqueles imenso segundos regurgitou toda a sua recente existência. Olhou Alva. Chorava. Lágrimas compulsivas desfaziam os seus olhos em cristais opacos.
Pétalas, umas atrás das outras caíam por terra, magnólias não mais em flor. As testemunhas, quatro afastam-se. O padrinho de Loki afasta-se com o seu afilhado bastardo discutindo com ele a conduta da honra.
Não ousa olhar a sua mulher. Foi-lhe proibido pelas suas entranhas.
A camisa pelo chão. Um peito alvo e rubro ao ameno da tarde.
Alva e as suas mãos de prata na pequena ferida, como que tapando um ralo de um vaso.
- As magnólias. As magnólias ditam o fim do Inverno, meu querido Balder.
[1] Seventy-Four (Version I) – John Cage, “Cage: The Seasons” 2000.
[2] Seventy-Four (Version II) – John Cage, “Cage: The Seasons” 2000.
Mais distante, raiando com timidez, um enorme ovo espalhava-se pela gema do céu.
Os papéis na secretária aparentavam desordem. Riscados a vermelho, a azul, a preto, mutilados por mãos que se julgariam zangadas.
Desde que o seu secretário foi decesso que a confusão fazia parte do seu dia-a-dia.
O último duelo antes de uma temporada em Arles ou Nice.
Olhava para o jardim aparado sem marcas de lâmina e para o cedro doente que um dos seus empregados tentava recuperar para que pudesse aguentar o avizinhado Inverno.
No gira-discos, Seventy-Four (version I[1]), de John Cage. Doze minutos e quinze segundos de extrema meditação.
Olhava o jardim. A peça cessa por dois segundos. Inspira profundamente. Gostaria de guardar esse ar nos pulmões para sempre.
Expira com dolência. Abana a cabeça e volta a sentar-se no cadeirão da secretária.
Estava farto. Incompreensivelmente farto.
Dezenas de folhas escritas diante de si, mas todas sem significado. Nesta idade, os objectos mais mundanos tornam-se insuportáveis e inúteis. Nada desaparece ou se transforma. Tudo tretas! As coisas existem como um tormento!
Atira as folhas ao chão. Uma dela fica entre o vazio e a mesa. Duas linhas. Evita que a curiosidade o domine, mas é impossível. Percebe que será sempre um derrotado nesse campo de batalha; é um curioso, estudioso, insidioso.
Duelo. Dia vinte e nove de Fevereiro ao sol do meio-dia no jardim Sem Delícias. Hoje.
Assinado: A. M.
Quem seria? A defesa da honra podia esperar para a semana que vem. Estava tão cansado…
Chamou o seu secretário.
- De quem é isto, Jorge? – Inquiriu cansado.
- Senhor, é semi-anónimo. – Respondeu prontamente. – Se me permite, parece cansado.
- Sim, Jorge. Cada vez mais. É um desagrado para a alma continuar a travar duelos para pessoas que querem defender a honra, mas que não tem tempo para se enfrentarem cara a cara. No fundo, são cobardes duas vezes. Alguns, não todos. Como este, por exemplo!
- Pagam bem, senhor…
- É verdade. Tenho de admitir que foi graças a isso que consegui todo este fausto que me sustenta. Mas, o cansaço, o receio de perder o meu primeiro duelo, é mais do que um pensamento, é uma evidência. Uma presença, porém ainda esquálida.
Ficou só. Olhou o armário das espadas. Bruxuleavam pouco à luz rarefeita daquela estranha manhã.
A prata dos florestes estava suja. Gostava de as ver assim, como se lhes desse um uso frequente. Pouco adiantava a luz, portanto…
Saiu. Um vento forte de Norte limpava o céu apressadamente como se fosse receber visitas. As magnólias em flor permaneciam intactas à violência como se estivessem fechadas numa redoma de vidro imperceptível.
Uma mulher a cavalo. Cabelos negros, pele tão branca como as flores daquelas árvores. A trote pelo caminho que atravessava a sua pequena propriedade e que tornara publico para servir toda agente da região e não só. Nunca a tinha visto.
Apertou a casaca e avançou na sua direcção.
Voltou a abrir a casaca para se demonstrar destemido em relação ao frio. Depois da doença não gostava de arriscar, mas era uma belíssima mulher, embora àquela distância não fosse capaz de discernir as feições do seu rosto.
Ela pára. Ágil como um flamingo destrona do cavalo. Estava descalça. Os pés amortecidos pela relva húmida desapareceram por instantes. Como uma árvore não fez um movimento.
A passos largos chegou até ela.
- Bom dia.
- Podia ser melhor. Deveria ser melhor.
- Noto uma inquietação na sua voz.
- Quem é o senhor?
- O seu nome é de uma flor, tenho a certeza.
Riu.
Os cabelos pretos taparam-lhe o rosto e não foi capaz de observar se havia corado com aquela afirmação.
Uma mulher que cora é uma mulher que tem o coração pronto a abrir-se para as palavras.
Belo ventre. Liso e puro como uma lençol lavado sobre uma cama.
- É a sua casa?
- De todos os que lá são bem-vindos.
- Não dá uma resposta clara.
- Não tanto como a palidez da sua pele.
Corou. As mãos pentearam os cabelos em perfeita sincronização.
- Alva.
- Balder.
Silêncio.
Os dedos dos pés em movimento.
As mãos sem ter para onde fugir.
- Muito prazer em te conhecer. O tratamento por tu é sempre uma consequência quando se ultrapassa o muito prazer.
- A intuição feminina sempre me fascinou. Então quando faz parte das palavras, ainda melhor.
- Tenho de ir. Resguardar a égua, e preparar-me para…
- Tens de ir, entendo. Prepara-te. Amanhã o jardim será mais uma vez o meu caminho.
- O meu não sei. Sincera…
- … Mente o coração que resiste.
Voltou para o cavalo e desapareceu na curva do jardim onde os carvalhos têm mais idade e ocultam quem lá entra.
Preparou-se.
Desta vez não usaria o fato de protecção, nem a máscara.
Tinha a certeza de que não combateria mais. Ainda por cima, o quase anónimo que iria enfrentar deixava-o sem modo de preparação.
Em branco. Defender alguém que não se atrevia a duelar-se era cansável.
Não se olhou ao espelho. O seu olhar como fel saboreando cada reflexo.
Tempo de ir.
Jorge, a sua testemunha. Acompanhara-o sempre nos últimos 15 anos.
O jardim cheirava a estrume. Os jardineiros haviam revolvido a terra recentemente. Não o incomodava.
Ela. Entre os arbustos, não se escondendo.
- Espera aqui, Jorge.
- Voltamos a nos encontrar.
- Sim, Balder. Por uma outra razão.
- Cálculo que sejas testemunha do que aqui se vai passar.
- Não.
- Não?
- M. A.
- Como?
- Sou eu. Martina Alva.
- Entendo. Então serei eu o teu duelista…
- Sim. Não posso combater. Não aprovo violência.
- Não aprovas?! Mas, contrataste-me para tal!
- Sim. O meu padrinho tem o acordo. Não haverá morte. O primeiro a ser ferido será dado como derrotado.
- Sabia que este meu último duelo seria bizarro. – Pausou olhando-o profundamente nos olhos. – Quem é o meu/seu adversário?
- Primeiro as razões. A razão, melhor dizendo. – Sorriu-lhe como ninguém lhe havia antes sorrido. – Traiu-me. Beijou outra mulher e assisti a tudo; às palavras, aos gestos, ao murmurar de dois apaixonados. Apaixonados no sentido de paixão, de desejo carnal, Balder. Quero a sua desonra. Desse homem a quem chamei de marido e a quem entreguei as minhas emoções. – Empalideceu e os sues olhos ficaram negros como carvão em pó. – Há testemunhas, padrinhos e tu.
- Não garanto a vitória. Parece-me estranho tudo isto.
- Um duelo é por um acaso uma banalidade?
- Um ferimento…
- Florete. Foi a arma que escolhi, visto ter sido eu a ofendida.
- Conversaram?
- Quis o caminho mais difícil.
- Bom…
- Sempre esta curiosidade parva pela dificuldade.
- De todo, Alva. Sou um desafiador de honra.
Chegou. Vestido com um fato de trabalho, altivo e seguro de si mesmo.
Apressou-se a agarrar o florete, e pelo gesto, Balder percebeu que se tratava de um ignorante no que dizia respeito a espadas.
Não vou querer ferir este homem à primeira investida, pensou.
Balder sentia um ardor na respiração, não suficientemente grande para lhe chamar de paixão à primeira impressão, mas mais à primeira expressão. Alva descendo do cavalo. Como uma rainha sem reino, com toda a Terra para lavrar numa intrépida conquista.
- Meu nome é Loki e desafio-o para um duelo. – Gritou bem alto. – A minha esposa é uma má intérprete da amizade, senhor. Garanto-lhe!
As veias incharam no seu alvo pescoço aristocrata. Nada disso interferia no manejo mental do que se seguiria.
Testemunhas e padrinhos em silêncio.
Jorge lendo o último capítulo de um livro secular.
Como sempre, uma grafonola. John Cage outra vez no seu mandamento. Loki reconheceu a peça e até disse, sem gabarolice, que a tinha visto ao vivo numa cidade grande do outro lado do Atlântico.
Balder agraciou-o, dizendo-lhe que tinha bom gosto. Depois sorriu. Um sorriso negro e impenetrável. Calçou as luvas que tinha dito a si mesmo que não calçaria e embainhou o florete ao alto.
Um fio de suor gélido dividiu o rosto de Loki ao meio. A sua pele parecia de vidro de má qualidade. Alva sorria entre dentes. A vingança era-lhe saborosa e o seu olhar igualmente negro. Como uma tempestade muda.
- En Garde! – Vociferou Loki.
- Calma, senhor. Isto não é esgrima. – Riram todos, mesmo as testemunhas adversárias. Encaravam aquilo como uma brincadeira. Um vil despropósito de meninos ricos.
Fora assim que Balder havia feito fortuna; com duelos. Gente cobarde que queria defender a honra, mas que lhe fazia impressão manejar uma arma. Lidar com a hipocrisia, sem fazer parte dela, era um sabor amargo, uma visão inóspita de um enorme vazio. Enfim, ossos do ofício, como muitas vezes lhe dizia o seu fiel secretário.
Jorge virou a página. Depois voltou atrás e sorriu. Deliciava-se com aquela leitura espontânea de luz e muita cor. Secular. Já não se escrevem livros assim, pensava.
O combate começou. Alva apertou as mãos uma na outra. Vestida de branco, parecia um arauto da compaixão. Cabelos negros e olhos tão azuis como o mar mais profundo.
A música. O som dos cucos e das andorinhas. O silvo dos corações batendo para fora dos peitos.
Loki esforçava-se para impressionar. Parecia fatigado e ainda só tinham decorrido alguns segundos. Balder mal segurava o seu florete. Fazia dele um veneno peçonhento.
Alva avançou na direcção do seu padrinho e sussurrou-lhe algo ao ouvido. Este acedeu afirmativamente com a cabeça. Mordeu o lábio, numa pequena ansiedade que a descrevia como uma mulher impossível de ser entendida por completo.
Balder bailava. Quando as lâminas se tocavam, Loki recuava. Tentava recuperar o fôlego e voltava ao ataque, grunhindo e vociferando calão.
Seventy-Four (version II[2]), doze minutos e cinco segundos de corrida sem respirar. Nos últimos segundos, como sempre, desferiria o golpe fatal. Neste caso, nunca mortal. Se bem que tal já lhe houvesse ocorrido no passado; matar.
Palavra indestrutível: matar. Matar. Matar! MATAR!
Uma pétala branca de magnólia tomba aos pés de Alva. Tão leve e já tão morta. Sobressalta-se. O mecanismo de defesa impele-a para trás. Loki distrai-se. Balder hesita em golpear aquele pobre homem orgulhoso.
Quando regressa ao combate, Loki tem a ponta do florete na sua garganta.
A canção termina.
Jorge encerra o livro com suavidade. A brisa vinda de Sul seca os suores frios nos rostos dos presentes. O tempo parou.
Balder afasta a arma, faz uma vénia sorridente, e Loki, sem hesitar golpeia-o no peito.
Um botão de sangue manchou aquela camisa branca. Sangue negro e silencioso.
Lábios entreabertos como uma ameixa bicada por pardais e inchada ao calor do sol.
- Senhor! Porque o golpeou? Estava tecnicamente derrotado! – Disse o seu padrinho de duelo.
- Não sei… - O florete caiu pelo chão. – Sinceramente não sei. Perdi. Na realidade, perdi. Venceu-me o orgulho.
Jorge acudiu o seu senhor. Nada de grave. Apenas um ferimento ligeiro no diafragma. Naqueles imenso segundos regurgitou toda a sua recente existência. Olhou Alva. Chorava. Lágrimas compulsivas desfaziam os seus olhos em cristais opacos.
Pétalas, umas atrás das outras caíam por terra, magnólias não mais em flor. As testemunhas, quatro afastam-se. O padrinho de Loki afasta-se com o seu afilhado bastardo discutindo com ele a conduta da honra.
Não ousa olhar a sua mulher. Foi-lhe proibido pelas suas entranhas.
A camisa pelo chão. Um peito alvo e rubro ao ameno da tarde.
Alva e as suas mãos de prata na pequena ferida, como que tapando um ralo de um vaso.
- As magnólias. As magnólias ditam o fim do Inverno, meu querido Balder.
[1] Seventy-Four (Version I) – John Cage, “Cage: The Seasons” 2000.
[2] Seventy-Four (Version II) – John Cage, “Cage: The Seasons” 2000.
Haikai
Entre a leveza
De um sopro
A manta da indecisão.
A Valéria negra
Evapora-se a luz
Um morcego assusta-me.
Suor a aço
Pele repleta de tempo
Buraco mais fundo que a morte.
Água azul
Sem vida, profunda
Não desço.
O estilhaço do silêncio
Luz penetrante do sol
Falta pouco.
Tristeza imensa
Não quando a lebre passou
No regresso tardio.
Paredes mudas
O grito é a doença
O perfil do abutre.
Não chove há dias
Apenas entardece cedo
O orvalho desiste de mim.
Persiste, a transpiração
Da mão na parede
Sem portas.
Sem som, o escuro
Como uma manta quente
O morcego passa.
De um sopro
A manta da indecisão.
A Valéria negra
Evapora-se a luz
Um morcego assusta-me.
Suor a aço
Pele repleta de tempo
Buraco mais fundo que a morte.
Água azul
Sem vida, profunda
Não desço.
O estilhaço do silêncio
Luz penetrante do sol
Falta pouco.
Tristeza imensa
Não quando a lebre passou
No regresso tardio.
Paredes mudas
O grito é a doença
O perfil do abutre.
Não chove há dias
Apenas entardece cedo
O orvalho desiste de mim.
Persiste, a transpiração
Da mão na parede
Sem portas.
Sem som, o escuro
Como uma manta quente
O morcego passa.
Quinta-feira, Outubro 07, 2010
Persona - A Ingmar Bergman
Os olhos mais claros do que o sol, mais negros do que todo o seu silêncio.
Sonho em carne viva.
Só e preciso uma cama para se morrer.
Esquecer.
De certeza que não queres falar?
Filho.
Sem pai.
Nunca-pai.
As sombras também podem dar as mãos.
Vês? Somos iguais...
O amor é um caixão que apodrece à luz do sol.
Beijo negro.
Se o meu sangue fluir sempre assim, nunca deixarei de sorrir...
Sonho em carne viva.
Só e preciso uma cama para se morrer.
Esquecer.
De certeza que não queres falar?
Filho.
Sem pai.
Nunca-pai.
As sombras também podem dar as mãos.
Vês? Somos iguais...
O amor é um caixão que apodrece à luz do sol.
Beijo negro.
Se o meu sangue fluir sempre assim, nunca deixarei de sorrir...
Segunda-feira, Setembro 13, 2010
M. (pode ser a M.orte)
M.
A periferia de uma nova emoção
Lâmina quente na superfície da pele
Ágil, mas lenta
Olhos em volta do percípicio
Rondam o silêncio de um encontro volátil
As palavras não existem entre nós
Somos uma transparência
Um envelope fechado
Se eu pudesse alentar
Os meus passos fugidios na manhã
Que é sempre descrita em vazio
Se eu pudesse…
Deter-me, olhar
Para a tua imagem
Perpetuar na Iridiscência dos teus olhos
As minhas feições melancólicas
Dizer-te
Como de um cume de uma montanha
Ao vento,
À palidez do céu raso sobre os eucaliptos
Algo.
Poucas palavras
Em círculos
Encadearem-se nas tuas
Tuas nas minhas
Como pétalas na asa da borboleta
Pedir-te
Que fiques um momento
Agora que não está cá ninguém.
Fica…
M, do baixio de luz sobre a sombra
Fiquemos.
A periferia de uma nova emoção
Lâmina quente na superfície da pele
Ágil, mas lenta
Olhos em volta do percípicio
Rondam o silêncio de um encontro volátil
As palavras não existem entre nós
Somos uma transparência
Um envelope fechado
Se eu pudesse alentar
Os meus passos fugidios na manhã
Que é sempre descrita em vazio
Se eu pudesse…
Deter-me, olhar
Para a tua imagem
Perpetuar na Iridiscência dos teus olhos
As minhas feições melancólicas
Dizer-te
Como de um cume de uma montanha
Ao vento,
À palidez do céu raso sobre os eucaliptos
Algo.
Poucas palavras
Em círculos
Encadearem-se nas tuas
Tuas nas minhas
Como pétalas na asa da borboleta
Pedir-te
Que fiques um momento
Agora que não está cá ninguém.
Fica…
M, do baixio de luz sobre a sombra
Fiquemos.
ajoelho-me
Ajoelho-me no meio da ponte
Não escuto o rio
Só o pó sobre os seixos
O tempo estagnado
A transpiração assustada
Dos outros, olhos na minha direcção
Fim dos (únicos) tempos.
Não escuto o rio
Só o pó sobre os seixos
O tempo estagnado
A transpiração assustada
Dos outros, olhos na minha direcção
Fim dos (únicos) tempos.
travessia
Atravessei a ponte
Desfeita na minha frente
Sou capaz de sentir
Quase, admito
A frívola amargura da destruição
La belle de la fête entra!
Danço, mas não sei dançar
Interessa pouco perante tanta destruição
Cheira a fim por todo o lado
Cada lado uma sombra
Cada sombra uma textura
Não se escutam os teus passos
Porque estás morta
Assim como as outras
Que estão para vir
Virão vestidas de cinzento
Porque o negro é para os vivos
Desfeita na minha frente
Sou capaz de sentir
Quase, admito
A frívola amargura da destruição
La belle de la fête entra!
Danço, mas não sei dançar
Interessa pouco perante tanta destruição
Cheira a fim por todo o lado
Cada lado uma sombra
Cada sombra uma textura
Não se escutam os teus passos
Porque estás morta
Assim como as outras
Que estão para vir
Virão vestidas de cinzento
Porque o negro é para os vivos
lixo
Despejo o lixo de manhã
Nunca o separo
Sou um homem cruel
Não me agrada a Humanidade
Como tal
Contribuo para a sua aniquilação
Bebo café pela manhã
Ainda todos lutam
Contra o adormecimento
Já despejei o lixo
Num saco plástico
Bem apertado
Quem me dera,
Despejá-lo
Nas
Vossas cabeças
E desejar com ardor
Que as ratazanas vos envolvam
Se banqueteiem satisfeitas
Amanhã não farei lixo.
Nunca o separo
Sou um homem cruel
Não me agrada a Humanidade
Como tal
Contribuo para a sua aniquilação
Bebo café pela manhã
Ainda todos lutam
Contra o adormecimento
Já despejei o lixo
Num saco plástico
Bem apertado
Quem me dera,
Despejá-lo
Nas
Vossas cabeças
E desejar com ardor
Que as ratazanas vos envolvam
Se banqueteiem satisfeitas
Amanhã não farei lixo.
Segunda-feira, Agosto 30, 2010
língua de pedra
Naquela terra, todas as mulheres têm línguas de pedra. Uma dela, a matriarca, tem a mais antiga língua de pedra da região. Não digo do mundo, porque não conheço um porcento da sua superfície. Os homens têm línguas normais, pelo qual são inferiorizados. A’mélia era uma mulher solitária. Vigiava as flores. Cuidava delas como se fossem um sustento. Só naquelas pequenas leiras abrigadas do vento aquilão. Cega de nascença era vista como uma personificação em carne viva da Mãe-Natureza-de-Pedra. Abria a boca com a língua de pedra de fora. Assim sabia se iria chover, para onde o vento iria soprar. Se chovesse, lesta se tornava pela colina abaixo; antes que os seixos se tornassem tão macios como a água e traiçoeiros como o vento. Sem vento. Sem chuva. Sem o cantar dos gaios e dos cucos. Um nada absoluto e constante. A sua língua de pedra rilhando os dentes gastos desde sempre. Senta-se. A’mélia chora. Pequenas gotas de pedra irrompem dos seus olhos cor de terra. O seu maior segredo.
a boca de um avastema
Quando o jardim interior ficou completo deixei de o amar. As suas cartas tinham ficado em branco, nas minhas mãos, mais tarde, em pó. Um pó fino e vítreo que me desfigurou os dedos para sempre. Percebi na minha infantil sapiência que me tinha enamorado por um Avastema. Tão físico quanto uma rocha fria no Inverno. Quente no odiado Verão. Odiado porque me avermelha o rosto. Não gosto de sentir temperaturas altas ou baixas através do meu corpo. Uma das cartas, longa nas suas vinte e duas páginas expressava-se sobre a sua boca. Unicamente a sua boca. Sem muita pontuação, como um discurso frenético e ansioso. Naquele momento desejei arrancar todas as roseiras do jardim pela raiz. Com as minhas mãos. Não o fiz. Tive pena. Talvez de mim, de mais uma desfiguração. As flores e as plantas são belas e úteis porque produzem sombra que esconde o sol. A sua boca imensa. Serpenteada numa espiral dourada. Na última frase, - longa, - exprime-se, finalmente com clareza. “Sendo eu um fantasma, não desafiei a morte, nem a vida. Não há em mim a sensação palpitante do que é e poderá ser eterno.
Ad’ ine’ tj’ istve
Hoje celebro a minha solidão. Fechei-me no sótão. Luminoso. Com clarabóias. Abandonei a sociedade, as pessoas, a tua distância…
Aprendi a falar grego, húngaro e russo. Centenas de páginas escrevi e guardei na minha desordem habitual. Passaram-se muitos anos desde o meu último jantar entre amigos, o meu último café num lugar público. Da minha casa modesta observo as ruas quase sempre saídas de um conto de invernoso. Optei pela solidão silenciosa e aparentemente confortável. Visto-me todas as manhãs como se fosse sair, mas fico por aqui. Um rapaz idiota deixa-me o jornal no alpendre, outro, não tão idiota, a mercearia semanal. Às vezes ficam ali parados, à espera que me revele. Nunca o farei. Quando saio para o pequeno jardim em frente da casa, oculto a minha cabeça com um capuz. A luz, as cores, não me interessam. Nas traseiras, o meu recanto. Um banco de pedra, duas cerejeiras sombreando-o.
Vejo-as da minha janela, em flor. Bonita imagem para celebrar a minha solidão. Não é mais do que distância. A ausência fecunda um tumulto dentro de mim. Em verdade, sepultei-me vivo e sou um cobarde. Rejeitei a vida para não morrer.
Aprendi a falar grego, húngaro e russo. Centenas de páginas escrevi e guardei na minha desordem habitual. Passaram-se muitos anos desde o meu último jantar entre amigos, o meu último café num lugar público. Da minha casa modesta observo as ruas quase sempre saídas de um conto de invernoso. Optei pela solidão silenciosa e aparentemente confortável. Visto-me todas as manhãs como se fosse sair, mas fico por aqui. Um rapaz idiota deixa-me o jornal no alpendre, outro, não tão idiota, a mercearia semanal. Às vezes ficam ali parados, à espera que me revele. Nunca o farei. Quando saio para o pequeno jardim em frente da casa, oculto a minha cabeça com um capuz. A luz, as cores, não me interessam. Nas traseiras, o meu recanto. Um banco de pedra, duas cerejeiras sombreando-o.
Vejo-as da minha janela, em flor. Bonita imagem para celebrar a minha solidão. Não é mais do que distância. A ausência fecunda um tumulto dentro de mim. Em verdade, sepultei-me vivo e sou um cobarde. Rejeitei a vida para não morrer.
aparição
Um quarto nunca está verdadeiramente vazio, embora este não fosse mais do que três paredes. Uma janela pequena devendo as suas características a uma escotilha de um navio.
Paredes espessas, nem um som, um eco.
Quente.
A velha estória da luz que se transforma em calor. O chã de madeira decompõe-se.
Entra.
Fecha.
Tranca a porta. Deita a chave por debaixo dela.
Sorri.
Faz-se prisioneira. Paula Micaela é uma doida varrida, mas o vento da razão impõe-lhe as mesmas folhas secas que os seus pensamentos enxotam para longe com a sua vassoura de fogo.
Um vulto cinzento feito de pó, num dos cantos do quarto.
Chama-a.
Não dá para perceber se é macho ou fêmea. Nem sequer… nada. Objecto neutro ilude o raciocínio.
Aproxima-se.
Não consegue ver o seu rosto, como quando estamos demasiado próximos de um objecto.
A sua figura é translúcida, inodora, sem temperatura.
Sussurra-lhe ao ouvido. Pela primeira vez um som preenche aquele quarto vazio.
O da sua sombra.
A sua silhueta esculpida num chão andante. Já não há medo.
A sombra falou.
Fim
A Guy de Maupassant
Paredes espessas, nem um som, um eco.
Quente.
A velha estória da luz que se transforma em calor. O chã de madeira decompõe-se.
Entra.
Fecha.
Tranca a porta. Deita a chave por debaixo dela.
Sorri.
Faz-se prisioneira. Paula Micaela é uma doida varrida, mas o vento da razão impõe-lhe as mesmas folhas secas que os seus pensamentos enxotam para longe com a sua vassoura de fogo.
Um vulto cinzento feito de pó, num dos cantos do quarto.
Chama-a.
Não dá para perceber se é macho ou fêmea. Nem sequer… nada. Objecto neutro ilude o raciocínio.
Aproxima-se.
Não consegue ver o seu rosto, como quando estamos demasiado próximos de um objecto.
A sua figura é translúcida, inodora, sem temperatura.
Sussurra-lhe ao ouvido. Pela primeira vez um som preenche aquele quarto vazio.
O da sua sombra.
A sua silhueta esculpida num chão andante. Já não há medo.
A sombra falou.
Fim
A Guy de Maupassant
o que aconteceria se eu morresse?
Sempre gostei de carvalhos. São enormes, sombrios. O perfeito pousio para observar as coisas do céu sem se ser um pássaro.
Anteontem, morri.
Num incêndio.
Fiquei desfigurado, irreconhecível.
Uma boa encenação, tenho de admitir.
A alguns metros de distância, os presentes rodeiam um rectângulo não muito profundo. Na morte somos todos iguais. O buraco tem sempre a mesma medida, as pás carregadas de terra fazem o mesmo barulho, os coveiros têm as mesmas conversas.
Pouca gente.
Algumas pessoas em falta. Estarão em casa apertadas em tanto sofrimento que não foram capazes de vir até aqui?
Gosto de cemitérios.
São corredores de pensamentos que só aqui me ocorrem.
Observo-os a todos, como um corvo ferido. Amanhã é o meu primeiro dia de desaparecimento. Não tenho um destino certo, nem um ponto cardeal que me agrade mais do que o outro.
Só quero partir, sem nada. Sem a minha armadura de medo, a minha personalidade de cinzas. Partir. Fecundar-me a mim mesmo na terra sombria mais estéril.
Is it, is it all a lie?
Current 93
Anteontem, morri.
Num incêndio.
Fiquei desfigurado, irreconhecível.
Uma boa encenação, tenho de admitir.
A alguns metros de distância, os presentes rodeiam um rectângulo não muito profundo. Na morte somos todos iguais. O buraco tem sempre a mesma medida, as pás carregadas de terra fazem o mesmo barulho, os coveiros têm as mesmas conversas.
Pouca gente.
Algumas pessoas em falta. Estarão em casa apertadas em tanto sofrimento que não foram capazes de vir até aqui?
Gosto de cemitérios.
São corredores de pensamentos que só aqui me ocorrem.
Observo-os a todos, como um corvo ferido. Amanhã é o meu primeiro dia de desaparecimento. Não tenho um destino certo, nem um ponto cardeal que me agrade mais do que o outro.
Só quero partir, sem nada. Sem a minha armadura de medo, a minha personalidade de cinzas. Partir. Fecundar-me a mim mesmo na terra sombria mais estéril.
Is it, is it all a lie?
Current 93
mundo paralelo
Meio Segundo nos separava. Parece ser pouco mais do que nada, mas era imenso, esse inócuo vazio. Um sorriso sempre tardio, um toque arrastado pela ausência da surpresa. Um piscar de olhos distante. Tudo febril. Tu. Eu. Unidos por um luminescente amor fúnebre. Devastados pelo cordão elástico do tempo.
Levo-te pela mão até a um pequeno lago escondido entre cedros e acácias. Um lago minúsculo, calmo e pouco profundo. As nossas conversas fulminam-se umas às outras. O nervosismo interior é canibalizado repetidas vezes entre o esófago e os intestinos. Não vamos sobreviver. É impossível resistir ao peso esmagador do tempo. Com muita força, as mãos unidas. Dormência.
Meio segundo.
Um mundo fragmentado em duas gigantescas partes. O sol reflecte-se na água límpida e cristalina. Pões os óculos, solto na tua mão.
O teu corpo débil e porfírio cai no rio. O meu já caiu. Há meio segundo atrás.
Levo-te pela mão até a um pequeno lago escondido entre cedros e acácias. Um lago minúsculo, calmo e pouco profundo. As nossas conversas fulminam-se umas às outras. O nervosismo interior é canibalizado repetidas vezes entre o esófago e os intestinos. Não vamos sobreviver. É impossível resistir ao peso esmagador do tempo. Com muita força, as mãos unidas. Dormência.
Meio segundo.
Um mundo fragmentado em duas gigantescas partes. O sol reflecte-se na água límpida e cristalina. Pões os óculos, solto na tua mão.
O teu corpo débil e porfírio cai no rio. O meu já caiu. Há meio segundo atrás.
Segunda-feira, Julho 05, 2010
Hortus
Ver as plantas crescerem é algo que só consigo explicar através do silêncio.
As minhas, lentas, tornam-se exuberantes. O sol que me castiga, alimenta-as. A água que me alimenta a sede, enruga a terra e chama-me..., chama-me...
Para morrer?
Eu sei como será essa tormenta.
Apenas lamento os que ficam, a dor interior nos seus corações.
As minhas, lentas, tornam-se exuberantes. O sol que me castiga, alimenta-as. A água que me alimenta a sede, enruga a terra e chama-me..., chama-me...
Para morrer?
Eu sei como será essa tormenta.
Apenas lamento os que ficam, a dor interior nos seus corações.
Foehn
A depressão bárica implica a aceitação do Eu anulado. Aniquilado na sua forma perceptível e concreta. Após a negação do corpo, sobrevive o pó, que o Ocidente resolveu chamar, - erradamente, - de alma.
Este vento constrói melhores seres humanos, contrariando os mediterrânicos que se limitam, literariamente falando, a imitar o pensamento centro-europeu. Nada de conceitos racistas. Nada disso! Apenas, que as obras escritas, são substancialmente mais inovadoras do que as dos países do sul. E porquê? Recorrendo à "autogénese", a criação do eu interior, para além da tradição do pensamento. Obtuso e demasiado falso-complexo.
Recordo os Tarahumaras, que não possuem conceito de deus (sim, com letra minúscula, porque não passa de um efeito secundário da fé), apenas se relacionam com a Natureza e como tal o seu conceito é muito mais simples e óbvio: Fêmea e Macho.
Não é difícil supor-mos tais afirmações: toda a Pré-História e as Idades seguintes, são ricas em objectos/manifestações fálicas e de Vénus fartas nas suas formas. como supor o contrário?
Só cedendo ao contágio católico, canceroso e vil. Todo o Cristianismo é sinónimo de Mal.
Escapo-me ao assunto, ao Foehn. Onde o meu copro perecerá, em breve, porque uma vida longa é como erosão: torna irreconhecível o nosso próprio nascimento como seres associados ao pensamento-uno.
Este vento constrói melhores seres humanos, contrariando os mediterrânicos que se limitam, literariamente falando, a imitar o pensamento centro-europeu. Nada de conceitos racistas. Nada disso! Apenas, que as obras escritas, são substancialmente mais inovadoras do que as dos países do sul. E porquê? Recorrendo à "autogénese", a criação do eu interior, para além da tradição do pensamento. Obtuso e demasiado falso-complexo.
Recordo os Tarahumaras, que não possuem conceito de deus (sim, com letra minúscula, porque não passa de um efeito secundário da fé), apenas se relacionam com a Natureza e como tal o seu conceito é muito mais simples e óbvio: Fêmea e Macho.
Não é difícil supor-mos tais afirmações: toda a Pré-História e as Idades seguintes, são ricas em objectos/manifestações fálicas e de Vénus fartas nas suas formas. como supor o contrário?
Só cedendo ao contágio católico, canceroso e vil. Todo o Cristianismo é sinónimo de Mal.
Escapo-me ao assunto, ao Foehn. Onde o meu copro perecerá, em breve, porque uma vida longa é como erosão: torna irreconhecível o nosso próprio nascimento como seres associados ao pensamento-uno.
Sexta-feira, Maio 21, 2010
moho
Como moho, gostava de ser resistente, não só ao tempo, mas à incansável força que é o pensamento. Provavelmente nao estarei vivo no fim deste ano, por isso tenho coisas para fazer. Para a semana darei o primeiro passo para a exterminação.
Penso num absurdo concreto. Como moho, mas pouco resistente, porém residente.
Se recebesse a notícia de que iria morrer de uma doença fatal. Iria atravessar as cinco fases dessa novidade.
negação
revolta
negociação
depressão
aceitação.
Ora, por diversas vezes passei por isto e fartei-me.
Não nego nada, porque já só acredito em pouca coisa.
Não me revolta, porque perdi demasiado tempo na crença disso mesmo no passado.
Não negoceio porque não acredito nas pessoas deste país. os Portugueses são cobardes, pequenos e maus na sua natureza.
Não me deprimo, por que sempre vivi num estado ainda mais deplorável. Ninguém entendeu isso quando devia...
Não ame aceito, porque deviamos escolher o que não queremos ser
Não sou como moho, mas como uma larva.
Penso num absurdo concreto. Como moho, mas pouco resistente, porém residente.
Se recebesse a notícia de que iria morrer de uma doença fatal. Iria atravessar as cinco fases dessa novidade.
negação
revolta
negociação
depressão
aceitação.
Ora, por diversas vezes passei por isto e fartei-me.
Não nego nada, porque já só acredito em pouca coisa.
Não me revolta, porque perdi demasiado tempo na crença disso mesmo no passado.
Não negoceio porque não acredito nas pessoas deste país. os Portugueses são cobardes, pequenos e maus na sua natureza.
Não me deprimo, por que sempre vivi num estado ainda mais deplorável. Ninguém entendeu isso quando devia...
Não ame aceito, porque deviamos escolher o que não queremos ser
Não sou como moho, mas como uma larva.
Quinta-feira, Novembro 26, 2009
Quinta-feira, Novembro 19, 2009
Mudança - perífrase do absurdo
Sim,
Tudo flui… os caminhos de água, deixam…
Outro dia
Permanentemente prisioneiro ao passado
Deixarei para trás, a dor. Não me deixa ser…
Mudo,
Todos os dias
Para que gostem de mim.
Apago os rastos, extingo a memória em todos
Um dia vazio
Limpo, lento, compassado
Devo ficar só…
Olha,
Diz-me que há mais do que um lugar para se ser feliz
Hoje não, outro dia
Estou disposto a ser feliz
Quero experimentar
Conheço bem a solidão
Sano,
Podes ensinar-me a ver melhor as minhas imperfeições
Através das tuas
Outro caminho,
Tomei tantos,
Incertos
Tudo flui… os caminhos de água, deixam…
Outro dia
Permanentemente prisioneiro ao passado
Deixarei para trás, a dor. Não me deixa ser…
Mudo,
Todos os dias
Para que gostem de mim.
Apago os rastos, extingo a memória em todos
Um dia vazio
Limpo, lento, compassado
Devo ficar só…
Olha,
Diz-me que há mais do que um lugar para se ser feliz
Hoje não, outro dia
Estou disposto a ser feliz
Quero experimentar
Conheço bem a solidão
Sano,
Podes ensinar-me a ver melhor as minhas imperfeições
Através das tuas
Outro caminho,
Tomei tantos,
Incertos
Quarta-feira, Novembro 04, 2009
Alpendre
É preciso amar as pessoas
Como se não houvesse amanhã.
Renato Russo
Sempre desejei ter um alpendre, como num filme americano; em madeira meia-escura virado para o sol poente. À direita da porta, uma cadeira de baloiço, à esquerda nada, talvez um vaso pequeno.
Em frente, um jardim bucólico, como uma pradaria sem fim.
Mas não é num lugar assim que eu estou. Acho-me nos degraus molhados do meu prédio por uma chuva passageira. As janelas estão todas iluminadas. Prepara-se o jantar em cada uma delas. Variadíssimos odores chegam até mim, como se fossem sons de crianças endiabradas falando em diversas línguas. Deixo-me estar, sem pensar. A impossibilidade desse acto faz-me rir e rir será sempre a melhor arma contra a tristeza, embora efémera e tão volátil como o álcool.
Distraio-me com os carros ocasionais que passam na minha frente, mas não quero saber o que estão a pensar. Isso pertence ao passado. Aquele que não quero voltar a tocar.
Sempre a sensação de fuga e anonimato. Não gosto de ser o centro das atenções, mas por outro lado não gosto de ser esquecido. Quando me vangloriam, definho para uma timidez astuta que me conhece bem. Existem vícios intrépidos que me golpeiam sem piedade e eu gosto que isso aconteça para não perder a noção do que sou. Nada.
O meu alpendre. Frio e ventoso. Talvez, estejas a chegar.
Percebi, porque me disseram, que amo os teus defeitos. Glorifico as horas do meu dia na adoração das tuas imperfeições. O que fazer? É assim que te quero pertencer. Subtraído de medo, multiplicado de mistério.
Estava decidido a contar-lhe tudo. Não a vou deixar falar, aproximar muito de mim. Quero focar-me no seu rosto e confrontar o seu espanto. Tenho praticado o discurso. O monólogo incipiente e sempre doloroso.
Habituei-me a esta dor silenciosa e quase egoísta. Só minha. Não a quero partilhar, seria continuar esse meu egoísmo, abdicar dele para que atormentasse outra vida.
Disperso-me como sempre. Inevitável fuga de mim mesmo. Por isso, devo ter dupla, tripla personalidade.
Ah! Chega de pensamentos assim.
Eis que chegas.
O carro parece preto, mas é azul, a tua cor favorita, a dos meus olhos que te vêm. Estacionas do outro lado da rua, no único lugar disponível. Uma lesta brisa irrompe do riacho que reflecte intensamente a noite clareada e arrepia-te os braços.
Senti uma saudade estranha superficialmente entranhada na minha pele. Não te via há poucos dias, mas havia envelhecido várias vidas entre aquele arrepio e este pensamento.
Sentas-te ao meu lado depois de trocarmos dois beijos faciais. Contemplamos os restos do pôr-do-sol. As minhas mãos perdiam-se entre aos joelhos que baloiçavam para disfarçar o meu nervosismo.
Hoje será assim. Nós os dois. Em silêncio. Quando te der o sono, podes encostar a cabeça no meu ombro.
Como se não houvesse amanhã.
Renato Russo
Sempre desejei ter um alpendre, como num filme americano; em madeira meia-escura virado para o sol poente. À direita da porta, uma cadeira de baloiço, à esquerda nada, talvez um vaso pequeno.
Em frente, um jardim bucólico, como uma pradaria sem fim.
Mas não é num lugar assim que eu estou. Acho-me nos degraus molhados do meu prédio por uma chuva passageira. As janelas estão todas iluminadas. Prepara-se o jantar em cada uma delas. Variadíssimos odores chegam até mim, como se fossem sons de crianças endiabradas falando em diversas línguas. Deixo-me estar, sem pensar. A impossibilidade desse acto faz-me rir e rir será sempre a melhor arma contra a tristeza, embora efémera e tão volátil como o álcool.
Distraio-me com os carros ocasionais que passam na minha frente, mas não quero saber o que estão a pensar. Isso pertence ao passado. Aquele que não quero voltar a tocar.
Sempre a sensação de fuga e anonimato. Não gosto de ser o centro das atenções, mas por outro lado não gosto de ser esquecido. Quando me vangloriam, definho para uma timidez astuta que me conhece bem. Existem vícios intrépidos que me golpeiam sem piedade e eu gosto que isso aconteça para não perder a noção do que sou. Nada.
O meu alpendre. Frio e ventoso. Talvez, estejas a chegar.
Percebi, porque me disseram, que amo os teus defeitos. Glorifico as horas do meu dia na adoração das tuas imperfeições. O que fazer? É assim que te quero pertencer. Subtraído de medo, multiplicado de mistério.
Estava decidido a contar-lhe tudo. Não a vou deixar falar, aproximar muito de mim. Quero focar-me no seu rosto e confrontar o seu espanto. Tenho praticado o discurso. O monólogo incipiente e sempre doloroso.
Habituei-me a esta dor silenciosa e quase egoísta. Só minha. Não a quero partilhar, seria continuar esse meu egoísmo, abdicar dele para que atormentasse outra vida.
Disperso-me como sempre. Inevitável fuga de mim mesmo. Por isso, devo ter dupla, tripla personalidade.
Ah! Chega de pensamentos assim.
Eis que chegas.
O carro parece preto, mas é azul, a tua cor favorita, a dos meus olhos que te vêm. Estacionas do outro lado da rua, no único lugar disponível. Uma lesta brisa irrompe do riacho que reflecte intensamente a noite clareada e arrepia-te os braços.
Senti uma saudade estranha superficialmente entranhada na minha pele. Não te via há poucos dias, mas havia envelhecido várias vidas entre aquele arrepio e este pensamento.
Sentas-te ao meu lado depois de trocarmos dois beijos faciais. Contemplamos os restos do pôr-do-sol. As minhas mãos perdiam-se entre aos joelhos que baloiçavam para disfarçar o meu nervosismo.
Hoje será assim. Nós os dois. Em silêncio. Quando te der o sono, podes encostar a cabeça no meu ombro.
Terça-feira, Setembro 29, 2009
dubium
Vou aprender a medir-me. Vou inventar uma régua, vou inventar novos centímetros, decímetros, milímetros e a partir daí, ser algo mais tolerável.
Esta manhã, durante um café, alguém me disse: não percas tempo a tentar entender as pessoas na sua essência, porque vais desesperar.
Só queria entender-me plenamente.
Porque é que isto me parece tão vago? Se a resposta fosse tão simples como respirar ou sorrir, não me afligiria.
Aos meus amigos, Obrigado.
Esta manhã, durante um café, alguém me disse: não percas tempo a tentar entender as pessoas na sua essência, porque vais desesperar.
Só queria entender-me plenamente.
Porque é que isto me parece tão vago? Se a resposta fosse tão simples como respirar ou sorrir, não me afligiria.
Aos meus amigos, Obrigado.
lágrima
Uma lágrima
corta o vidro em dois
um espelho
mostra a minha
transparência
sinónimo do
vazio da luz.
corta o vidro em dois
um espelho
mostra a minha
transparência
sinónimo do
vazio da luz.
Segunda-feira, Setembro 21, 2009
lagsam fällt der regen
No início dos anos 1990, havia uma banda alemã que eu apreciava bastante. Chamavam-se The Eternal Afflict e fizeram uma das canções da minha vida; Langsam Fällt Der Regen.
Por que razão recordei esta canção?
Porque choveu. Choveu e eu quis, nessa Sexta-feira, senti-la adelgaçar-se ao corpo como uma segunda pele.
Senti-me livre, com toda a simplicidade do momento.
Por que razão recordei esta canção?
Porque choveu. Choveu e eu quis, nessa Sexta-feira, senti-la adelgaçar-se ao corpo como uma segunda pele.
Senti-me livre, com toda a simplicidade do momento.
Quinta-feira, Setembro 17, 2009
...
Não sei o que sentir
Dói-me o peito, como se tivesses partido,
Mudado o teu nome.
Não sei como te chamar.
Dói-me o peito, como se tivesses partido,
Mudado o teu nome.
Não sei como te chamar.
Carta de Aeroporto - 2009.09.17
Os aeroportos têm uma aura especial. As pessoas partem, deixam fragmentos para trás. Regressam. O brilho nos olhos vem intensificado e o silêncio é o único som que ruge dentro delas.
Ainda é madrugada. O sol esfarrapa-se contra os vidros e a luz, ténue e frágil, esmigalha-se como pó.
O meu voo está atrasado. Na verdade nem quero partir. Não sei porque o estou a fazer. Agarro a minha mochila com força como se estivesse em queda livre. Não consigo concentrar-me em absolutamente nada.
Estou petrificado num pensamento que tomou conta da minha respiração, do meu sangue, saliva e sentidos. Estes últimos meses, têm sido séculos que revivo apressadamente.
Permaneces em mim. Como um hera que aquece as paredes do meu ser.
Vou partir. Regressarei com o coração flamejado e as dúvidas intensificadas. Engraçado! Parece que estou a escrever-te, sem no entanto querer que recebas estas palavras.
É-me doloroso sentir que antevês a minha insegurança. Provavelmente ainda dormes. O teu corpo quente, imóvel e quieto enquanto sonha. Os teus braços cruzados na almofada como se abraçasses o amor da tua vida. Não eu.
Há alguns meses atrás percebi que teria de me amar. Loucamente, sem no entanto me deixar possuir por um narcisismo egoísta. Amar-me com respeito para que tu também me pudesses…
Que ridículo para mim supor tal coisa.
Sento o meu corpo numa cadeira de alumínio fria. Os meus dedos escrevem na ganga das calças. Os casais trespassam-me com as suas sombras brilhantes. Sou o único que não veio acompanhado.
Uma mentira pequena, porque tenho o meu caderno, onde me reescrevo incessantemente. Ali, nas páginas quadriculadas eu digo ao meu amor tudo o que sinto. Não espero uma resposta, e talvez seja essa a única segurança a que eu me posso agarrar. Guardo para mim estas minhas confissões confusas. Sei que ao fim de cada página, reside um conforto que me alivia da angústia de não te ver todos os dias. Por uns minutos, mas todos os dias. Por isso, parto. Viajo para uma nova incerteza.
Quero ficar. Ficar-te, como um doente que espera a recuperação. Deitado na cama. A janela semi-aberta e a luz do sol entremeada entre as árvores de fruto. Seria um dia perfeito. Só contigo.
Escrevo na ganga como se escrevesse na água. Dilui-se tudo tão rapidamente que só algumas palavras resistirão à imemória.
Contigo é diferente. O teu exímio sentido de observação alerta-me as emoções, enquanto os sentidos são guiados pelo balanço da tua respiração. A tua mão aquecida pelo sol acaricia a minha pele nervosa. Com o olhar gravo todos os teus movimentos e espero que no dia seguinte tudo se repita.
Uma voz anuncia o meu voo. Meia hora de atraso. Menos mal. Preferia que nem viesse, que não tivesse vontade de partir. O céu azul, pleno de confiança esconde no seu seio uma tempestade, mas não para hoje.
Levanto o meu corpo da cadeira quente de alumínio. O sol brilha nas vidraças lavando o rosto sonolento das pessoas. Os casais abraçam-se. Bebem café juntos, conversam de mão dada e eu escrevo no ar, enquanto o meu corpo balança como uma gaivota rasante sobre as ondas de aço do mar.
Devem conseguir ouvir os meus pensamentos. Há pessoas que têm essa capacidade; olham para alguém e num segundo tudo lhes é claro.
Tu és assim. Clarividente. Reservas-te numa profundidade inalcançável. Deste-me um dedo da tua mão quando eu já sonhava com o braço. Não espero mais nada, mas anseio tudo. Sei que o caminho a percorrer é sempre melhor do que o resultado.
Vinte minutos. Como o tempo me persegue e como eu troço dele! Faltam vinte minutos para que a porta se abra, mostre o meu bilhete e siga para o autocarro e depois para a aeronave. Tão simples é partir e não resistir ao facilitismo da cobardia.
Mão no bolso.
Sinto o telemóvel. Calado há demasiado tempo. É sempre assim. Assusto as pessoas, como o tubarão o peixe miúdo.
Nada. Aproveito a consciência que tenho dessa insignificância e fecho os olhos. O melodrama da minha condição faz-me rir. Ridiculamente, não podia ceder a este muro de silêncio. Voltei a erguer-me da cadeira. Chamei a atenção das pessoas que me rodeavam com a brusquidão do meu movimento.
Como um miúdo comecei a correr sem direcção. Braços abertos, derrapando no chão polido com a luz sombria do sol. Caio. Levanto-me.
A transpiração envolveu-me numa bruma indestrutível. Em segundos todo o meu propósito em estar ali perdeu sentido.
Um homem aproxima-se de mim erguendo ligeiramente o braço direito para me ajudar. É parecido com alguém do meu passado.
Fingi não o ver, mas eis que está demasiado perto de mim. Pergunta-me se me estou a sentir bem, se preciso de ajuda, se não me quero sentar.
Não quero parar. Se parar vou escrever e voltar a pensar e seguir viagem e não regressar. Não quero! Deixe-me rodopiar e esquecer que estou a amar pela primeira vez desta maneira, por favor…
Vejo o teu rosto nas vidraças choradas de orvalho. A água tem esse maravilhoso dom de criar imagens nos lugares mais impróprios.
Outro avião aterra.
Olho as minhas mãos. Estão escritas. Desordenadamente angustiadas. Palavras imersas, umas sobre outras. O suor não apaga estas veias externas, feridas a céu aberto.
Ajoelho-me. Sinto-me esmagar pelo meu próprio peso.
O Homem chama por alguém. Um som claro e decidido. Vêm para me ajudar, mas eu não quero ajuda. Só quero que tu venhas e me digas que sim, que parta e volte para ti como se nenhum tempo tivesse a ousadia de passar entre nós.
Procuro a mochila, nela a caneta.
Sento-me.
Dois homens aproximam-se.
Escrevo o teu nome no braço. Sublinho-o. Beijo-o como se fosse uma fotografia. Encolho-me na pequena cadeira de alumínio ainda morna, abraço-me à tua ausência e choro. Tanto que os meus braços gelam. Tanto que os homens não ousam aproximar-se. Tanto que os aviões atrasam todos ao mesmo tempo! Tanto, tanto que deixo de respirar e só tenho forças para dizer o teu nome.
Ainda é madrugada. O sol esfarrapa-se contra os vidros e a luz, ténue e frágil, esmigalha-se como pó.
O meu voo está atrasado. Na verdade nem quero partir. Não sei porque o estou a fazer. Agarro a minha mochila com força como se estivesse em queda livre. Não consigo concentrar-me em absolutamente nada.
Estou petrificado num pensamento que tomou conta da minha respiração, do meu sangue, saliva e sentidos. Estes últimos meses, têm sido séculos que revivo apressadamente.
Permaneces em mim. Como um hera que aquece as paredes do meu ser.
Vou partir. Regressarei com o coração flamejado e as dúvidas intensificadas. Engraçado! Parece que estou a escrever-te, sem no entanto querer que recebas estas palavras.
É-me doloroso sentir que antevês a minha insegurança. Provavelmente ainda dormes. O teu corpo quente, imóvel e quieto enquanto sonha. Os teus braços cruzados na almofada como se abraçasses o amor da tua vida. Não eu.
Há alguns meses atrás percebi que teria de me amar. Loucamente, sem no entanto me deixar possuir por um narcisismo egoísta. Amar-me com respeito para que tu também me pudesses…
Que ridículo para mim supor tal coisa.
Sento o meu corpo numa cadeira de alumínio fria. Os meus dedos escrevem na ganga das calças. Os casais trespassam-me com as suas sombras brilhantes. Sou o único que não veio acompanhado.
Uma mentira pequena, porque tenho o meu caderno, onde me reescrevo incessantemente. Ali, nas páginas quadriculadas eu digo ao meu amor tudo o que sinto. Não espero uma resposta, e talvez seja essa a única segurança a que eu me posso agarrar. Guardo para mim estas minhas confissões confusas. Sei que ao fim de cada página, reside um conforto que me alivia da angústia de não te ver todos os dias. Por uns minutos, mas todos os dias. Por isso, parto. Viajo para uma nova incerteza.
Quero ficar. Ficar-te, como um doente que espera a recuperação. Deitado na cama. A janela semi-aberta e a luz do sol entremeada entre as árvores de fruto. Seria um dia perfeito. Só contigo.
Escrevo na ganga como se escrevesse na água. Dilui-se tudo tão rapidamente que só algumas palavras resistirão à imemória.
Contigo é diferente. O teu exímio sentido de observação alerta-me as emoções, enquanto os sentidos são guiados pelo balanço da tua respiração. A tua mão aquecida pelo sol acaricia a minha pele nervosa. Com o olhar gravo todos os teus movimentos e espero que no dia seguinte tudo se repita.
Uma voz anuncia o meu voo. Meia hora de atraso. Menos mal. Preferia que nem viesse, que não tivesse vontade de partir. O céu azul, pleno de confiança esconde no seu seio uma tempestade, mas não para hoje.
Levanto o meu corpo da cadeira quente de alumínio. O sol brilha nas vidraças lavando o rosto sonolento das pessoas. Os casais abraçam-se. Bebem café juntos, conversam de mão dada e eu escrevo no ar, enquanto o meu corpo balança como uma gaivota rasante sobre as ondas de aço do mar.
Devem conseguir ouvir os meus pensamentos. Há pessoas que têm essa capacidade; olham para alguém e num segundo tudo lhes é claro.
Tu és assim. Clarividente. Reservas-te numa profundidade inalcançável. Deste-me um dedo da tua mão quando eu já sonhava com o braço. Não espero mais nada, mas anseio tudo. Sei que o caminho a percorrer é sempre melhor do que o resultado.
Vinte minutos. Como o tempo me persegue e como eu troço dele! Faltam vinte minutos para que a porta se abra, mostre o meu bilhete e siga para o autocarro e depois para a aeronave. Tão simples é partir e não resistir ao facilitismo da cobardia.
Mão no bolso.
Sinto o telemóvel. Calado há demasiado tempo. É sempre assim. Assusto as pessoas, como o tubarão o peixe miúdo.
Nada. Aproveito a consciência que tenho dessa insignificância e fecho os olhos. O melodrama da minha condição faz-me rir. Ridiculamente, não podia ceder a este muro de silêncio. Voltei a erguer-me da cadeira. Chamei a atenção das pessoas que me rodeavam com a brusquidão do meu movimento.
Como um miúdo comecei a correr sem direcção. Braços abertos, derrapando no chão polido com a luz sombria do sol. Caio. Levanto-me.
A transpiração envolveu-me numa bruma indestrutível. Em segundos todo o meu propósito em estar ali perdeu sentido.
Um homem aproxima-se de mim erguendo ligeiramente o braço direito para me ajudar. É parecido com alguém do meu passado.
Fingi não o ver, mas eis que está demasiado perto de mim. Pergunta-me se me estou a sentir bem, se preciso de ajuda, se não me quero sentar.
Não quero parar. Se parar vou escrever e voltar a pensar e seguir viagem e não regressar. Não quero! Deixe-me rodopiar e esquecer que estou a amar pela primeira vez desta maneira, por favor…
Vejo o teu rosto nas vidraças choradas de orvalho. A água tem esse maravilhoso dom de criar imagens nos lugares mais impróprios.
Outro avião aterra.
Olho as minhas mãos. Estão escritas. Desordenadamente angustiadas. Palavras imersas, umas sobre outras. O suor não apaga estas veias externas, feridas a céu aberto.
Ajoelho-me. Sinto-me esmagar pelo meu próprio peso.
O Homem chama por alguém. Um som claro e decidido. Vêm para me ajudar, mas eu não quero ajuda. Só quero que tu venhas e me digas que sim, que parta e volte para ti como se nenhum tempo tivesse a ousadia de passar entre nós.
Procuro a mochila, nela a caneta.
Sento-me.
Dois homens aproximam-se.
Escrevo o teu nome no braço. Sublinho-o. Beijo-o como se fosse uma fotografia. Encolho-me na pequena cadeira de alumínio ainda morna, abraço-me à tua ausência e choro. Tanto que os meus braços gelam. Tanto que os homens não ousam aproximar-se. Tanto que os aviões atrasam todos ao mesmo tempo! Tanto, tanto que deixo de respirar e só tenho forças para dizer o teu nome.
Sexta-feira, Setembro 11, 2009
#1 - parélio para o futuro
Sofrer é um equívoco
um pássaro que voa só com uma asa
um mar que cessa as ondas
um amor que não acaba.
um pássaro que voa só com uma asa
um mar que cessa as ondas
um amor que não acaba.
Quarta-feira, Setembro 09, 2009
Pai (1945-1997)
Não por ser hoje. Não por nunca te perder de vista dos meus pensamentos. Para te dizer, para que o mundo ouça que sinto muito a tua falta, mesmo doze anos depois. Amo-te e amar-te-ei sempre. Porquê hoje? Porque estava a preparar-me, porque há já algum tempo recuperei parte da minha vida dos seus próprios destroços. Porque compreendi-te tarde, como tu a mim. Porque tenho uma vida pela frente que quero ver realizada.
Pai, sempre.
Pai, sempre.
Terça-feira, Julho 21, 2009
Caminho para casa - um ode a quem sabe o que é misantropia
A Kafka
Não consegue chegar a casa. Por mais que tente, é impossível levar o seu corpo cansado até casa.
Dois longos dias.
Apanha o metro, galga o passeio, corta caminho pelo baldio e não consegue chegar a casa.
O sono não o visita. A dor no peito é incomensurável. Não entende. Não pode pensar nas coisas que disse e não sentiu. Não acredita no pecado, por isso infiltra-se no erro. O erro individual. Relembra Rousseau e não entende porquê.
Ninguém repara nele. Na roupa empoeirada. Nos atacadores desapertados. Na gravata torcida sobre si mesma. Grita. Não o ouvem. Bate no corpo belfo e nervoso como um rugido. Palerma.
Pára. Olha a sua casa. Não muito longe. Iluminada pelo sol vespertino. Parece um palácio caiado de branco. Odeia a cor branca. Odeia a claridade, seu sofrimento. Avança a correr. Atravessa a rua e não olha para os lados.
Os lábios estão nublados como seiva bruta. Os braços não têm ossos e baloiçam pelo ar como pássaros abatidos que não sabem onde poisar para morrer.
A casa! Grita. A casa, a casa! Quero ir para casa!
Poucos metros. Mais um passeio e mais uma rua.
Princípio. De volta ao metro. Através do vidro vislumbra assustado o passeio. Ao virar a esquina, o baldio terreno inexpressivo.
Análogo a si próprio.
Alguém distraído. Uma mulher. Olhos nas profundezas de um saco de compras. Chocam. Os óculos da mulher partem-se no chão. Ele atrapalha-se. Apanha uma lente, depois a haste. Pede desculpa. Não faz mal, disse. Observa-o. É uma curiosidade estranha. Está sujo. Precisa de ajuda. Ele precisa de ajuda. Poisa os óculos no muro alto e esqueço-os. Só para proteger os olhos dos sol. Baratos. Comprados num supermercado. Acompanha-o.
Sentido contrário. Pergunta-lhe se está bem.
Quero ir para casa, responde e chora. Pendura as suas mãos nos ombros descobertos da rapariga que é mulher feita. Perde-se. De volta o sonho e desejo de encontrar alguém ideal. Tem olhos azuis, mas podem ser verdes. Não sabe bem. O corpo dói. Ajuda-me. Quero ir para casa, a minha casa, a tua casa. Quero rodar a chave na fechadura, entrar, tirar os sapatos, cair no chão e aí adormecer.
Leva-o como um idoso. Cada passo, uma direcção diferente. Ébrio parece. Os sapatos têm as solas gastas. Emitem um som irritante e plástico. Não me abandones, mesmo que não me conheças. Leva-me até casa. Fica ali, depois do terreno baldio. É só atravessar as ervas daninhas e ter cuidado com as ratazanas. Eu tenho medo de ratos. Tinha medo de ratos, agora já não. Só tenho medo de não conseguir voltar para casa. Nunca pensei que um lar fosse tão importante. Passei a vida a fugir. A evitar conhecer pessoas.
Calma. Pede-lhe calma. Atravessam a rua. A passadeira reflecte o sol cruel. Ela fecha os olhos. Deixa-se guiar por uma cegueira maviosa. Abraça-o com muita força. Tanta que ele se sente sôfrego. Obrigado. Agradece.
Ainda não chegamos, redarguiu. Tem calma. Não larga o leve saco de compras. Queijo, onze maçãs e um chocolate de leite. O fim do mês está próximo. Precisa do dinheiro. Pouco dinheiro. Só para comer. O resto não importa. Gasta-o devagar. Sem luxos. Um café, de vez em quando, quando a tristeza a tenta sufocar. A roupa servir-lhe-á para muito tempo. Não engorda. Não emagrece. Não é vaidosa, porque é bonita. Nasceu graciosa, cresceu formosa, morrerá bela.
Os tapetes. Vai chover. Estão cá fora estendidos. Como peixe salgado.
Apaixonou-se. Já sabia. Uma casualidade estaferma do seu imenso interior. Atravessam a estéril parcela de terra seca. Detém-se. É um homem inseguro, pouco transparente. Preferia cegar. Ser uma aférese de emoções e instintos que o tempo não é capaz de julgar.
Teme.
Voltar para trás e não poder regressar. Ela avança. Puxa-o com ela. Não se move. Faz parte do solo quente e poeirento. Diz-lhe que se calhar é melhor não pertencer aqui. Que o castigo tardou, mas chegou.
Poisa o saco no chão. Duas maçãs vermelhas rebolam na terra. Apanha-as e olha para trás. Os carros contornando a rotunda. Os carros com gente morta envolvendo a rotunda interminável. Alegora-se àquela imagem. Desentende-se com o precipício existencial alojado na sua garganta e volta para trás. Esmaga as maçãs com os dedos. Persegue-o como se estivesse longe.
Chama-o. Ei! Ei!
Nem sequer sabe o seu nome. Entremeia o seu braço no dele. O cheiro sumarento inebria as abelhas do matagal. Cercam-no. Ela torce um pé. O braço desprende-se do dele e as suas mãos macias como as de um morto agarram o tornozelo. A mazela é forte e constante. Não o pode acompanhar.
O homem não é homem. Transforma-se num colmeal. Um apiário de sangue e linfa. Devoram-no. Tão perto de casa e devoram-no!
Volta para trás. Arrasta o pé magoado. Como vai ser? Pensa. Menos duas maçãs quando a vida já está tão cara.
Não consegue chegar a casa. Por mais que tente, é impossível levar o seu corpo cansado até casa.
Dois longos dias.
Apanha o metro, galga o passeio, corta caminho pelo baldio e não consegue chegar a casa.
O sono não o visita. A dor no peito é incomensurável. Não entende. Não pode pensar nas coisas que disse e não sentiu. Não acredita no pecado, por isso infiltra-se no erro. O erro individual. Relembra Rousseau e não entende porquê.
Ninguém repara nele. Na roupa empoeirada. Nos atacadores desapertados. Na gravata torcida sobre si mesma. Grita. Não o ouvem. Bate no corpo belfo e nervoso como um rugido. Palerma.
Pára. Olha a sua casa. Não muito longe. Iluminada pelo sol vespertino. Parece um palácio caiado de branco. Odeia a cor branca. Odeia a claridade, seu sofrimento. Avança a correr. Atravessa a rua e não olha para os lados.
Os lábios estão nublados como seiva bruta. Os braços não têm ossos e baloiçam pelo ar como pássaros abatidos que não sabem onde poisar para morrer.
A casa! Grita. A casa, a casa! Quero ir para casa!
Poucos metros. Mais um passeio e mais uma rua.
Princípio. De volta ao metro. Através do vidro vislumbra assustado o passeio. Ao virar a esquina, o baldio terreno inexpressivo.
Análogo a si próprio.
Alguém distraído. Uma mulher. Olhos nas profundezas de um saco de compras. Chocam. Os óculos da mulher partem-se no chão. Ele atrapalha-se. Apanha uma lente, depois a haste. Pede desculpa. Não faz mal, disse. Observa-o. É uma curiosidade estranha. Está sujo. Precisa de ajuda. Ele precisa de ajuda. Poisa os óculos no muro alto e esqueço-os. Só para proteger os olhos dos sol. Baratos. Comprados num supermercado. Acompanha-o.
Sentido contrário. Pergunta-lhe se está bem.
Quero ir para casa, responde e chora. Pendura as suas mãos nos ombros descobertos da rapariga que é mulher feita. Perde-se. De volta o sonho e desejo de encontrar alguém ideal. Tem olhos azuis, mas podem ser verdes. Não sabe bem. O corpo dói. Ajuda-me. Quero ir para casa, a minha casa, a tua casa. Quero rodar a chave na fechadura, entrar, tirar os sapatos, cair no chão e aí adormecer.
Leva-o como um idoso. Cada passo, uma direcção diferente. Ébrio parece. Os sapatos têm as solas gastas. Emitem um som irritante e plástico. Não me abandones, mesmo que não me conheças. Leva-me até casa. Fica ali, depois do terreno baldio. É só atravessar as ervas daninhas e ter cuidado com as ratazanas. Eu tenho medo de ratos. Tinha medo de ratos, agora já não. Só tenho medo de não conseguir voltar para casa. Nunca pensei que um lar fosse tão importante. Passei a vida a fugir. A evitar conhecer pessoas.
Calma. Pede-lhe calma. Atravessam a rua. A passadeira reflecte o sol cruel. Ela fecha os olhos. Deixa-se guiar por uma cegueira maviosa. Abraça-o com muita força. Tanta que ele se sente sôfrego. Obrigado. Agradece.
Ainda não chegamos, redarguiu. Tem calma. Não larga o leve saco de compras. Queijo, onze maçãs e um chocolate de leite. O fim do mês está próximo. Precisa do dinheiro. Pouco dinheiro. Só para comer. O resto não importa. Gasta-o devagar. Sem luxos. Um café, de vez em quando, quando a tristeza a tenta sufocar. A roupa servir-lhe-á para muito tempo. Não engorda. Não emagrece. Não é vaidosa, porque é bonita. Nasceu graciosa, cresceu formosa, morrerá bela.
Os tapetes. Vai chover. Estão cá fora estendidos. Como peixe salgado.
Apaixonou-se. Já sabia. Uma casualidade estaferma do seu imenso interior. Atravessam a estéril parcela de terra seca. Detém-se. É um homem inseguro, pouco transparente. Preferia cegar. Ser uma aférese de emoções e instintos que o tempo não é capaz de julgar.
Teme.
Voltar para trás e não poder regressar. Ela avança. Puxa-o com ela. Não se move. Faz parte do solo quente e poeirento. Diz-lhe que se calhar é melhor não pertencer aqui. Que o castigo tardou, mas chegou.
Poisa o saco no chão. Duas maçãs vermelhas rebolam na terra. Apanha-as e olha para trás. Os carros contornando a rotunda. Os carros com gente morta envolvendo a rotunda interminável. Alegora-se àquela imagem. Desentende-se com o precipício existencial alojado na sua garganta e volta para trás. Esmaga as maçãs com os dedos. Persegue-o como se estivesse longe.
Chama-o. Ei! Ei!
Nem sequer sabe o seu nome. Entremeia o seu braço no dele. O cheiro sumarento inebria as abelhas do matagal. Cercam-no. Ela torce um pé. O braço desprende-se do dele e as suas mãos macias como as de um morto agarram o tornozelo. A mazela é forte e constante. Não o pode acompanhar.
O homem não é homem. Transforma-se num colmeal. Um apiário de sangue e linfa. Devoram-no. Tão perto de casa e devoram-no!
Volta para trás. Arrasta o pé magoado. Como vai ser? Pensa. Menos duas maçãs quando a vida já está tão cara.
a rapariga que entregava jornais gratuitos
Estou virado para nascente. O sol ainda baixo de Inverno irrompe pelos terraços em silhueta. Espero o transporte enquanto observo os que me rodeiam. Observar, pode ser uma palavra forte para o que faço. De soslaio. Indignado comigo mesmo por razões absurdas e intransmissíveis.
Cachecóis, casacos grossos e longos. Todos têm frio, menos eu. Todos estão a pensar no frio, menos eu.
Ei-la.
Segurando dezenas de jornais. Distribuindo-os a gente nascida em segundas-feiras. Antipaticamente supérfluas e irritadas com coisa nenhuma. As mãos estão avermelhadas pela geada humana. Chega perto de mim. Estende-me um jornal, sem esperança que eu aceite aquelas páginas de notícias que não me interessam para nada.
Aceito. Sorrio e agradeço-lhe com um obrigado enforcado. Toco-lhe de modo suave na ponta de um dos dedos. Qual? Esqueci.
Tem cabelos extensos e vivos. As cores cruzam-se. Ruiva ou loira? Não importa. Reagem à brisa que disforma as expressões das pessoas. Volta a agradecer enquanto balança as pernas magras para a frente.
A voz no altifalante adia a chegada da carruagem do metropolitano. Suspiro. Penso que deveria ter coragem e conseguir dizer mais qualquer coisa.
Tem olhos azuis. Redondos, embicado nos cantos. O contorno parece pintado, mas não é. Nem sequer é uma ilusão. Não é nada. É isso que tenho de pensar. Que não é nada.
Desapareço.
Dia seguinte. Aproximo-me do pequeno carro cor-de-laranja de transporte de jornais. Leio os cabeçalhos. Releio-os para passar o tempo inútil que é esperar de frente para o sol nascente. O tédio visita-me. Ela demora-se perto de um casal. Devem conhecer-se. Invejo-os. Penso no agrado que é ouvir aquela voz melodiosamente doce. Não devia pensar, não hoje, não hoje. Entro na carruagem. Desta vez, sem o jornal. Não interessa. Nunca os lia. Prefiro dedicar-me a um livro. Sempre a minha única companhia.
A viagem é demorada. Sete minutos corrompidos pela minha ansiedade e pelo meu desalento.
Estou nervoso. Fatidicamente impetrado no meu habitual marasmo.
Devia suplicar-me às gaivotas e aos pardais.
Ulteriormente. Fim da tarde.
Chove. Pouco e em silêncio. Talvez seja a razão do meu amor pela chuva: a maneira como cai se mistura com os corpos das pessoas, com as casas, com as ruas e os carros. Como as pessoas se apalermam quando chove. Não sabem o que fazer quando ela nos mascara de igual.
Termino o livro interiormente. Ouço o sino da igreja anunciado uma morte. Um anónimo versículo de um livro eternamente inacabado. Terei de tomar outra rua. Não gosto de sinos de igreja retumbando. Não gosto de pessoas que fingem tristeza. Só fui a funerais de pessoas que gostava, nunca a de gente que apenas tinham um nome que as identificasse.
Estou só. Mais só do que toda a solidão do mundo. Que acto exacerbado de egoísmo! Que elegia tão viva e carnívora!
Sempre eu. Sempre as minhas preocupações. Mais importantes que as dos outros. O medo das ruas, dos passeios, dos Cafés cheios, do metropolitano lotado, da tabacaria repleta de gente anónima. E eu? O mais anónimo de todos. Tanto que me esqueço do que faço. O tempo passa e desaparecem de dentro de mim todas as minhas acções quotidianas.
Avisto-a. Não traz a capa cor-de-laranja sobre os ombros. Faço da distracção um hábito e colido com ela no meu imaginário.
Reconhece-me. Estica os braços e arranja as mangas largas da camisola. Tem uma cicatriz no pulso esquerdo. Daqui a pouco, vou lhe sorrir e ela retribuirá esse sorriso com um esgar de lábios.
Acontece tudo como tinha cogitado.
Paro. Em frente dela. Não entende. Não se apercebe que me fascino. Não está assustada com a minha presença silenciosa. Porque haveria de estar?
Um carro acelera rua acima. Não ouço o que me diz. Sento-me no muro. Senta-se também.
Chove. Miudinha e sem sabor. Não sei o que lhe dizer.
Penso em convidá-la para um café que será um insucesso. Uma vergonha que será futuramente eterna. Nem sei o nome dela. Talvez, não precise de o saber. Tusso. Re-tusso e inspiro com toda a força nervosa que parasita dentro de mim.
- Estás cansado? Pareces cansado ou com vontade de dizer alguma coisa.
- Ainda bem que falaste primeiro. Precisava disso.
- Falta de coragem? – Arranja os longos cabelos pesados. Cobre os dedos nas mangas da camisola e suspira.
Anseia pelo convite.
- Antecipação de uma resposta negativa. Sempre a mesma questão. Sempre…
- Queres tomar qualquer coisa? Um café? Uma Cola?...
- Era o meu próximo passo. Obrigado.
- Por que me agradeces?
- Por teres tomado esse passo. Gigantesco para mim.
- Não acredito! Vamos! – Esticou a mão.
- Ainda vermelha.
- Como?
- A tua mão que vejo todas as manhãs…
- Ah…, isso. É do frio.
- Senti uma vontade épica em aquecê-las. Desculpa se pareço ousado.
- Aqueço-as sempre sozinha.
- Eu tenho as minhas sempre quentes. Um fogo estranho que parece preparado para me consumir.
Não era isto que lhe queria transmitir. Encerro os lábios num bloco de pedra sobreposto em outro. A minha boca, um muro de latrite[1] irregular e obtusa.
- És engraçado.
- Achas? Considero-me fastidioso.
- Não és. A tua insegurança empobrece os teus sonhos. És rico no que imaginas.
- Gostava de te conhecer. Só isso. Os dias em que te via distribuindo jornais, deixavam-me pensativo. Esquecia as frases que lia nos livros, a paragem onde deveria sair. Uma confusão maviosa vestia-me as manhãs. Posterior a essa sensação, o descalabro interior. A falta de esperança de força de vontade. Como se quisesse palpar o que não é deste mundo. A sensação livre e pura de poder demonstrar o que sinto.
- E não é o que estás a fazer agora?
- Ruptura.
- Contigo próprio. Não és o mesmo de há cinco minutos.
- Tenho nome.
- Guarda-o para ti. Para já. Como o meu.
Saímos daquele lugar vaporoso com a luz húmida. A pele esfriara, mas o seu rosto era agora mais brilhante e suave. Segui-a. O passeio demasiado curto não permitia que andássemos lado a lado. Admirei os seus ombros rectilíneos e a sua passada aveludada. Não era necessário saber mais sobre ela.
O anonimato continua a ser a forma mais pura de individualidade. Essa poderia ser a razão da minha existência. Abjecto e para-objecto do meu próprio ser. Consciente de mim mesmo, mas ciente da minha amnésia intrujona.
Um pequeno Café. Poucas mesas e por consequência, poucas cadeiras.
Junto à porta. Como dois vasos ornamentado a entrada. Pedimos café, os dois ao mesmo tempo. Porém, não nos iludimos com esse gesto. Não ficamos a pensar que isso poderia ser um sinal de amor eterno, de cara-metade ou alma-gémea. Está cansada de lugares comuns, de gente comum. Divaga pouco, mas constrói-se muito. Deixo de pensar só para a ouvir.
- Adoro café.
- Bebo por beber. Deve ser do medo de estar só em lugares públicos.
- És um homem de certezas?
- Preferia que o afirmasses, em vez de o perguntares.
- Posso reformular a frase…
- Não. Deixa. Ficou gravado na memória. Agora é tarde demais. Já não esqueço. Sou de pedra nestas coisas.
- De pedra? Não entendi. – Torceu o nariz. A mão esquerda não parava de mexer o café.
- Sou duro e eterno nesses assuntos.
- Não és nada. És pequeno como toda a gente. Por vezes tenho momentos de grandiosidade, mas sei que sou pequena.
- Fascinas-me. O teu ar.
- Porque o resto é-te desconhecido. A minha maneira de ser. Provavelmente a minha maneira de vestir te indique qualquer coisa…
- Nem por isso. Há maneiras de vestir que são contrárias ao que penso. A modernidade, actualmente, é um vazio. Não passa de uma moda passageira e pouco construtiva.
- Concordo.
Troveja. Parece Primavera. A mais doce das estações. Olho a Cumulonimbus envolvendo o cinza-claro do céu e peço que dure, quando sei que daqui a quinze minutos os pássaros voltarão a cantar. Uma brisa fresca e límpida e melodiosa cintilará pelas ruas e a violenta bátega estará esquecida.
- Adoro trovoada. Mas, resguardada da mesma.
- …
Ia dizer que não gostava. Fingir que a violência dos céus me fazia sentir tão forte como as cargas eléctricas formigando no interior da nuvem. Não podia estar mais longe da minha verdade.
- Moro naquela direcção. – Apontou.
- Também eu. Dois anos.
- Desde que nasci. Sempre pertenci a este lugar. Quando era menina parecia-me o maior lugar da Terra. As ruas, as quintas com muros altos só tinham fim na minha imaginação. Curioso como tudo isto se perde.
- Para onde vais, depois deste café?
- Para casa. Acompanhamo-nos. Se quiseres.
- Quero. Mas, não sei como será amanhã.
- Não és possessivo.
- Já o foram comigo. Auto-vacinei-me contra isso. Tenho medo que me roubem o pouco espaço que tenho.
- Nunca é verdadeiramente nosso.
- O espaço?
- O espaço, o tempo, o futuro…
Saímos. A luz ricocheteava nas Cumulus frescas. Suavemente o azul do céu apoderava-se de todo o nosso campo visual e a pressa de chegar a casa foi substituída por uma sensação de paralisia de movimentos. Parar. Respirar. Fecundar dentro de mim uma nova vontade de viver. Nem o nome me interessa. Nem a ela, tão pouco.
Alento os passos. Tenho de ser eu a acompanhar. Eu devo ceder. Porque não posso esperar o contrário. Nunca pude esperar.
Observa-me. Como um gato que finge brincar, quando na verdade pratica o exercício do seu domínio.
São azuis celestes. Só uma vez vi cor igual. Mediterrâneo no Verão. Vasto e quieto. Morno e anestesiante de todos os receios da vida.
Quis voltar a vê-lo. Pode sentir a água como parte do meu sangue. Recusei-me a isso. A ceder a um prazer. A repetir a felicidade.
Contornamos o passeio que dá para a larga e recente inaugurada avenida. Não tardará a chover novamente. Não falámos. Como se estivéssemos num sítio em que isso fosse proibido. Falar. Eu não tenho nada a dizer. Ela vasculha-me. Dá-lhe prazer ser o objecto desejado. A pedra clara que difere dos seixos negros.
A minha mão aligeira-se nos seus dedos. Estão frios. Húmidos ainda pela chuva. Ri. Em silêncio fotográfico. Cortamos caminho pelo descampado de flora rasteira.
Voltamos a ter assunto. As plantas, comummente chamadas de ervas daninhas, têm de ter nome, pensamos. Tantas, em tão pequeno espaço. Umas são banais como relva. Outras belas e luxuriantes. Uma dessas flores é de um lilás forte e espinhoso, aberta num cone circular perfeito. É a nossa favorita. Os sapatos roçam o herbário como se estivéssemos a esfolhear um livro. De facto, tudo é literatura: o regresso a casa, o mais épico dos romances.
Aponto-lhe a minha casa. Despede-se, mas digo-lhe que a acompanharei até ao seu lar. Não objecta em contrário.
Subimos a rua. Escutamos os dois riachos que se fundem num só, a poucos metros atrás de nós.
- Hermengarda. Como no livro de Herculano.
- Teu nome? Desejava chamar-me Eurico. Só por um momento.
- Talvez, Hermengarda não estivesse talhada para amar Eurico.
- Teríamos de estudar a onomástica[2] dos nossos nomes…
- Então, Tu chamas-te mesmo Eurico? – Espantou-se.
- Não. Tenho um nome mais vulgar. Nada que se possa igualar à beleza do teu.
- O meu era o da minha avó. Nada mais do que isso.
- Já é alguma coisa, Hermengarda. – Ansiava por dizer o seu nome.
- Eu posso imaginar…
- Imagina.
- A minha avó foi a fonte de inspiração para Alexandre Herculano. Criou a personagem a partir da beleza da minha antepassada.
Ri. Era uma ideia bonita. Mais bonita do que todos os significados que poderia dar ao meu nome e à minha existência. Recorrer à mentira poderia ser uma solução acertada se depois nunca mais a fosse ver.
- Diz-me o teu nome. – Agarrou no meu braço.
- Não digo. – Voltei a rir. – Não vais gostar.
- Diz!
- Decesso.
Extinguiu-se a alegria. O fármaco que até então tinha servido como pavio para a felicidade, passou a inocular-se voluntariamente no cérebro, onde as perturbações vivem, procriam e reproduzem. Afastou-se de mim. Não fiquei obstúpido. Não dei mais uma passada.
Os centímetros que nos apartavam passaram a metros.
Continuou a afastar-se. Acelerou o passo em semi-corrida. Correu, finalmente até desaparecer numa outra rua onde nunca tinha estado.
Fim
2009.07.06 – Paulo Malekith Rema
[1] Latrite - composto rico em ferro, muito bom para substrato. Fácil de cortar quando húmido, resistente quando endurecido. O Templo de Angkor Wat foi construído, parcialmente, recorrendo a esta rocha.
[2] Onomástica - Estudo dos nomes próprios de todos os géneros, das suas origens e dos processos de denominação no âmbito de uma ou mais línguas ou dialectos.
Cachecóis, casacos grossos e longos. Todos têm frio, menos eu. Todos estão a pensar no frio, menos eu.
Ei-la.
Segurando dezenas de jornais. Distribuindo-os a gente nascida em segundas-feiras. Antipaticamente supérfluas e irritadas com coisa nenhuma. As mãos estão avermelhadas pela geada humana. Chega perto de mim. Estende-me um jornal, sem esperança que eu aceite aquelas páginas de notícias que não me interessam para nada.
Aceito. Sorrio e agradeço-lhe com um obrigado enforcado. Toco-lhe de modo suave na ponta de um dos dedos. Qual? Esqueci.
Tem cabelos extensos e vivos. As cores cruzam-se. Ruiva ou loira? Não importa. Reagem à brisa que disforma as expressões das pessoas. Volta a agradecer enquanto balança as pernas magras para a frente.
A voz no altifalante adia a chegada da carruagem do metropolitano. Suspiro. Penso que deveria ter coragem e conseguir dizer mais qualquer coisa.
Tem olhos azuis. Redondos, embicado nos cantos. O contorno parece pintado, mas não é. Nem sequer é uma ilusão. Não é nada. É isso que tenho de pensar. Que não é nada.
Desapareço.
Dia seguinte. Aproximo-me do pequeno carro cor-de-laranja de transporte de jornais. Leio os cabeçalhos. Releio-os para passar o tempo inútil que é esperar de frente para o sol nascente. O tédio visita-me. Ela demora-se perto de um casal. Devem conhecer-se. Invejo-os. Penso no agrado que é ouvir aquela voz melodiosamente doce. Não devia pensar, não hoje, não hoje. Entro na carruagem. Desta vez, sem o jornal. Não interessa. Nunca os lia. Prefiro dedicar-me a um livro. Sempre a minha única companhia.
A viagem é demorada. Sete minutos corrompidos pela minha ansiedade e pelo meu desalento.
Estou nervoso. Fatidicamente impetrado no meu habitual marasmo.
Devia suplicar-me às gaivotas e aos pardais.
Ulteriormente. Fim da tarde.
Chove. Pouco e em silêncio. Talvez seja a razão do meu amor pela chuva: a maneira como cai se mistura com os corpos das pessoas, com as casas, com as ruas e os carros. Como as pessoas se apalermam quando chove. Não sabem o que fazer quando ela nos mascara de igual.
Termino o livro interiormente. Ouço o sino da igreja anunciado uma morte. Um anónimo versículo de um livro eternamente inacabado. Terei de tomar outra rua. Não gosto de sinos de igreja retumbando. Não gosto de pessoas que fingem tristeza. Só fui a funerais de pessoas que gostava, nunca a de gente que apenas tinham um nome que as identificasse.
Estou só. Mais só do que toda a solidão do mundo. Que acto exacerbado de egoísmo! Que elegia tão viva e carnívora!
Sempre eu. Sempre as minhas preocupações. Mais importantes que as dos outros. O medo das ruas, dos passeios, dos Cafés cheios, do metropolitano lotado, da tabacaria repleta de gente anónima. E eu? O mais anónimo de todos. Tanto que me esqueço do que faço. O tempo passa e desaparecem de dentro de mim todas as minhas acções quotidianas.
Avisto-a. Não traz a capa cor-de-laranja sobre os ombros. Faço da distracção um hábito e colido com ela no meu imaginário.
Reconhece-me. Estica os braços e arranja as mangas largas da camisola. Tem uma cicatriz no pulso esquerdo. Daqui a pouco, vou lhe sorrir e ela retribuirá esse sorriso com um esgar de lábios.
Acontece tudo como tinha cogitado.
Paro. Em frente dela. Não entende. Não se apercebe que me fascino. Não está assustada com a minha presença silenciosa. Porque haveria de estar?
Um carro acelera rua acima. Não ouço o que me diz. Sento-me no muro. Senta-se também.
Chove. Miudinha e sem sabor. Não sei o que lhe dizer.
Penso em convidá-la para um café que será um insucesso. Uma vergonha que será futuramente eterna. Nem sei o nome dela. Talvez, não precise de o saber. Tusso. Re-tusso e inspiro com toda a força nervosa que parasita dentro de mim.
- Estás cansado? Pareces cansado ou com vontade de dizer alguma coisa.
- Ainda bem que falaste primeiro. Precisava disso.
- Falta de coragem? – Arranja os longos cabelos pesados. Cobre os dedos nas mangas da camisola e suspira.
Anseia pelo convite.
- Antecipação de uma resposta negativa. Sempre a mesma questão. Sempre…
- Queres tomar qualquer coisa? Um café? Uma Cola?...
- Era o meu próximo passo. Obrigado.
- Por que me agradeces?
- Por teres tomado esse passo. Gigantesco para mim.
- Não acredito! Vamos! – Esticou a mão.
- Ainda vermelha.
- Como?
- A tua mão que vejo todas as manhãs…
- Ah…, isso. É do frio.
- Senti uma vontade épica em aquecê-las. Desculpa se pareço ousado.
- Aqueço-as sempre sozinha.
- Eu tenho as minhas sempre quentes. Um fogo estranho que parece preparado para me consumir.
Não era isto que lhe queria transmitir. Encerro os lábios num bloco de pedra sobreposto em outro. A minha boca, um muro de latrite[1] irregular e obtusa.
- És engraçado.
- Achas? Considero-me fastidioso.
- Não és. A tua insegurança empobrece os teus sonhos. És rico no que imaginas.
- Gostava de te conhecer. Só isso. Os dias em que te via distribuindo jornais, deixavam-me pensativo. Esquecia as frases que lia nos livros, a paragem onde deveria sair. Uma confusão maviosa vestia-me as manhãs. Posterior a essa sensação, o descalabro interior. A falta de esperança de força de vontade. Como se quisesse palpar o que não é deste mundo. A sensação livre e pura de poder demonstrar o que sinto.
- E não é o que estás a fazer agora?
- Ruptura.
- Contigo próprio. Não és o mesmo de há cinco minutos.
- Tenho nome.
- Guarda-o para ti. Para já. Como o meu.
Saímos daquele lugar vaporoso com a luz húmida. A pele esfriara, mas o seu rosto era agora mais brilhante e suave. Segui-a. O passeio demasiado curto não permitia que andássemos lado a lado. Admirei os seus ombros rectilíneos e a sua passada aveludada. Não era necessário saber mais sobre ela.
O anonimato continua a ser a forma mais pura de individualidade. Essa poderia ser a razão da minha existência. Abjecto e para-objecto do meu próprio ser. Consciente de mim mesmo, mas ciente da minha amnésia intrujona.
Um pequeno Café. Poucas mesas e por consequência, poucas cadeiras.
Junto à porta. Como dois vasos ornamentado a entrada. Pedimos café, os dois ao mesmo tempo. Porém, não nos iludimos com esse gesto. Não ficamos a pensar que isso poderia ser um sinal de amor eterno, de cara-metade ou alma-gémea. Está cansada de lugares comuns, de gente comum. Divaga pouco, mas constrói-se muito. Deixo de pensar só para a ouvir.
- Adoro café.
- Bebo por beber. Deve ser do medo de estar só em lugares públicos.
- És um homem de certezas?
- Preferia que o afirmasses, em vez de o perguntares.
- Posso reformular a frase…
- Não. Deixa. Ficou gravado na memória. Agora é tarde demais. Já não esqueço. Sou de pedra nestas coisas.
- De pedra? Não entendi. – Torceu o nariz. A mão esquerda não parava de mexer o café.
- Sou duro e eterno nesses assuntos.
- Não és nada. És pequeno como toda a gente. Por vezes tenho momentos de grandiosidade, mas sei que sou pequena.
- Fascinas-me. O teu ar.
- Porque o resto é-te desconhecido. A minha maneira de ser. Provavelmente a minha maneira de vestir te indique qualquer coisa…
- Nem por isso. Há maneiras de vestir que são contrárias ao que penso. A modernidade, actualmente, é um vazio. Não passa de uma moda passageira e pouco construtiva.
- Concordo.
Troveja. Parece Primavera. A mais doce das estações. Olho a Cumulonimbus envolvendo o cinza-claro do céu e peço que dure, quando sei que daqui a quinze minutos os pássaros voltarão a cantar. Uma brisa fresca e límpida e melodiosa cintilará pelas ruas e a violenta bátega estará esquecida.
- Adoro trovoada. Mas, resguardada da mesma.
- …
Ia dizer que não gostava. Fingir que a violência dos céus me fazia sentir tão forte como as cargas eléctricas formigando no interior da nuvem. Não podia estar mais longe da minha verdade.
- Moro naquela direcção. – Apontou.
- Também eu. Dois anos.
- Desde que nasci. Sempre pertenci a este lugar. Quando era menina parecia-me o maior lugar da Terra. As ruas, as quintas com muros altos só tinham fim na minha imaginação. Curioso como tudo isto se perde.
- Para onde vais, depois deste café?
- Para casa. Acompanhamo-nos. Se quiseres.
- Quero. Mas, não sei como será amanhã.
- Não és possessivo.
- Já o foram comigo. Auto-vacinei-me contra isso. Tenho medo que me roubem o pouco espaço que tenho.
- Nunca é verdadeiramente nosso.
- O espaço?
- O espaço, o tempo, o futuro…
Saímos. A luz ricocheteava nas Cumulus frescas. Suavemente o azul do céu apoderava-se de todo o nosso campo visual e a pressa de chegar a casa foi substituída por uma sensação de paralisia de movimentos. Parar. Respirar. Fecundar dentro de mim uma nova vontade de viver. Nem o nome me interessa. Nem a ela, tão pouco.
Alento os passos. Tenho de ser eu a acompanhar. Eu devo ceder. Porque não posso esperar o contrário. Nunca pude esperar.
Observa-me. Como um gato que finge brincar, quando na verdade pratica o exercício do seu domínio.
São azuis celestes. Só uma vez vi cor igual. Mediterrâneo no Verão. Vasto e quieto. Morno e anestesiante de todos os receios da vida.
Quis voltar a vê-lo. Pode sentir a água como parte do meu sangue. Recusei-me a isso. A ceder a um prazer. A repetir a felicidade.
Contornamos o passeio que dá para a larga e recente inaugurada avenida. Não tardará a chover novamente. Não falámos. Como se estivéssemos num sítio em que isso fosse proibido. Falar. Eu não tenho nada a dizer. Ela vasculha-me. Dá-lhe prazer ser o objecto desejado. A pedra clara que difere dos seixos negros.
A minha mão aligeira-se nos seus dedos. Estão frios. Húmidos ainda pela chuva. Ri. Em silêncio fotográfico. Cortamos caminho pelo descampado de flora rasteira.
Voltamos a ter assunto. As plantas, comummente chamadas de ervas daninhas, têm de ter nome, pensamos. Tantas, em tão pequeno espaço. Umas são banais como relva. Outras belas e luxuriantes. Uma dessas flores é de um lilás forte e espinhoso, aberta num cone circular perfeito. É a nossa favorita. Os sapatos roçam o herbário como se estivéssemos a esfolhear um livro. De facto, tudo é literatura: o regresso a casa, o mais épico dos romances.
Aponto-lhe a minha casa. Despede-se, mas digo-lhe que a acompanharei até ao seu lar. Não objecta em contrário.
Subimos a rua. Escutamos os dois riachos que se fundem num só, a poucos metros atrás de nós.
- Hermengarda. Como no livro de Herculano.
- Teu nome? Desejava chamar-me Eurico. Só por um momento.
- Talvez, Hermengarda não estivesse talhada para amar Eurico.
- Teríamos de estudar a onomástica[2] dos nossos nomes…
- Então, Tu chamas-te mesmo Eurico? – Espantou-se.
- Não. Tenho um nome mais vulgar. Nada que se possa igualar à beleza do teu.
- O meu era o da minha avó. Nada mais do que isso.
- Já é alguma coisa, Hermengarda. – Ansiava por dizer o seu nome.
- Eu posso imaginar…
- Imagina.
- A minha avó foi a fonte de inspiração para Alexandre Herculano. Criou a personagem a partir da beleza da minha antepassada.
Ri. Era uma ideia bonita. Mais bonita do que todos os significados que poderia dar ao meu nome e à minha existência. Recorrer à mentira poderia ser uma solução acertada se depois nunca mais a fosse ver.
- Diz-me o teu nome. – Agarrou no meu braço.
- Não digo. – Voltei a rir. – Não vais gostar.
- Diz!
- Decesso.
Extinguiu-se a alegria. O fármaco que até então tinha servido como pavio para a felicidade, passou a inocular-se voluntariamente no cérebro, onde as perturbações vivem, procriam e reproduzem. Afastou-se de mim. Não fiquei obstúpido. Não dei mais uma passada.
Os centímetros que nos apartavam passaram a metros.
Continuou a afastar-se. Acelerou o passo em semi-corrida. Correu, finalmente até desaparecer numa outra rua onde nunca tinha estado.
Fim
2009.07.06 – Paulo Malekith Rema
[1] Latrite - composto rico em ferro, muito bom para substrato. Fácil de cortar quando húmido, resistente quando endurecido. O Templo de Angkor Wat foi construído, parcialmente, recorrendo a esta rocha.
[2] Onomástica - Estudo dos nomes próprios de todos os géneros, das suas origens e dos processos de denominação no âmbito de uma ou mais línguas ou dialectos.
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